Festival acontece de 10 a 13 de junho de 2027, em Araxá, e pretende reunir escritores dos 26 estados e do Distrito Federal. Homenagem ao autor mineiro marca os 70 anos de publicação do romance “A Vida em Flor de Dona Beja”

O 15º Fliaraxá – Festival Literário Internacional de Araxá, que acontece de 10 a 13 de junho de 2027, terá como tema “Literatura, Território e Imaginação”. A edição pretende reunir 27 escritores, representando os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, para apresentar um panorama da diversidade da produção literária contemporânea do país. O patrono será o escritor mineiro Agripa Vasconcelos (1905–1969), homenageado pelos 70 anos da publicação de seu romance A Vida em Flor de Dona Beja, lançado em 1957.

Patrocinado pela CBMM desde sua primeira edição, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, o Fliaraxá consolidou uma atuação continuada em Araxá, associando a programação literária à educação, à valorização dos artistas locais, à acessibilidade e à preservação da memória cultural.

O tema parte da compreensão de que a literatura é uma das formas pelas quais um país reconhece seus territórios, preserva suas memórias e imagina sua própria existência. Cada região brasileira guarda histórias, linguagens, personagens e experiências que, transformadas pela criação literária, ultrapassam fronteiras geográficas e passam a integrar o patrimônio cultural de todos.

Ao reunir escritores de diferentes regiões, o Fliaraxá propõe uma reflexão sobre o território como espaço de pertencimento, memória, linguagem, afetos e relações humanas. A proposta contempla desde as narrativas urbanas até as escritas do sertão, das florestas, das periferias e das comunidades tradicionais, incluindo a literatura indígena e a produção afro-brasileira.

Agripa Vasconcelos e a invenção literária de Minas Gerais

A escolha de Agripa Vasconcelos como patrono estabelece uma ligação direta com o tema da edição. Nascido em Matozinhos, Minas Gerais, o escritor dedicou parte fundamental de sua produção à recriação literária da formação histórica e social do estado, especialmente por meio do projeto Sagas do País das Gerais.

Publicado em 1957, A Vida em Flor de Dona Beja recria a trajetória de Ana Jacinta de São José, personagem histórica de Araxá que se tornou uma das figuras mais conhecidas do imaginário mineiro. O romance alcançou projeção nacional e inspirou a telenovela Dona Beija, exibida pela Rede Manchete em 1986, com Maitê Proença no papel principal.

Agripa Vasconcelos também escreveu Chica que Manda, publicado em 1966, romance dedicado à trajetória de Chica da Silva, personagem histórica do antigo Arraial do Tijuco, atual Diamantina. As duas obras integram Sagas do País das Gerais e demonstram como o escritor transformou acontecimentos e personagens da história regional em narrativas literárias de alcance nacional.

Ao recriar essas duas mulheres, Agripa aproximou a história mineira de questões que permanecem atuais, como as relações de poder, as desigualdades sociais, a condição feminina, a liberdade e a construção da memória histórica.

Dona Beja e Chica da Silva em destaque em 2027

A homenagem a Agripa Vasconcelos acontece em um momento especialmente significativo para a memória das duas personagens que protagonizam seus romances.

Em 22 de outubro de 2026, o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais (Conep) aprovou o tombamento estadual da Casa de Dona Beja, em Araxá, reconhecendo seu valor histórico, arquitetônico e cultural. A decisão ocorre às vésperas dos 70 anos do romance de Agripa Vasconcelos, estabelecendo uma ligação entre a preservação do patrimônio histórico e sua representação na literatura brasileira.

Outra coincidência amplia a relevância da homenagem. No Carnaval de 2027, a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro, levará à Marquês de Sapucaí o enredo “Laroyê Xica da Silva: A História por Trás da História”, dedicado à personagem também retratada por Agripa Vasconcelos em Chica que Manda.

Embora o desfile não seja uma adaptação do romance, a homenagem demonstra a permanência de Chica da Silva no imaginário brasileiro e a atualidade das discussões sobre sua trajetória e suas diferentes representações históricas.

A convergência entre os 70 anos de A Vida em Flor de Dona Beja, o tombamento da casa histórica em Araxá e o desfile do Salgueiro oferece ao 15º Fliaraxá uma oportunidade de aproximar literatura, patrimônio e cultura popular.

Um Brasil de 27 territórios literários

A presença de escritores dos 26 estados e do Distrito Federal será um dos eixos centrais da edição de 2027. A proposta é apresentar diferentes experiências territoriais e formas de expressão que compõem a literatura brasileira contemporânea.

O Festival pretende discutir como os lugares aparecem na criação literária: como memória da infância, paisagem, experiência social, espaço de pertencimento ou deslocamento e, também, como território inventado pela imaginação.

Nesse encontro, a obra de Agripa Vasconcelos dialogará com a produção atual. Assim como o escritor mineiro transformou personagens e acontecimentos regionais em narrativas que alcançaram leitores de todo o país, autores contemporâneos continuam recriando os lugares de onde vêm, onde vivem ou que imaginam.

Araxá será o ponto de encontro dessas diferentes experiências literárias. A cidade, que guarda parte importante da memória histórica de Dona Beja, receberá escritores de todas as regiões brasileiras para discutir as relações entre literatura, identidade, história e criação artística.

Com “Literatura, Território e Imaginação”, o 15º Fliaraxá reafirma sua proposta de valorizar a diversidade cultural brasileira e a capacidade da literatura de transformar lugares em narrativas, experiências em memória e personagens em referências que atravessam gerações.

 

Quatorze edições de literatura, educação e encontros

Criado em 2012 pelo jornalista e gestor cultural Afonso Borges, por meio da Associação Cultural Sempre um Papo, o Fliaraxá chega à sua 15ª edição com uma trajetória de crescimento e participação na vida cultural de Araxá. Ao longo de 14 edições, realizadas entre 2012 e 2026, o Festival acumulou aproximadamente 270 mil presenças físicas, reuniu mais de mil participações de escritores e convidados e construiu um acervo audiovisual que registra parte importante da literatura brasileira contemporânea.

A primeira edição aconteceu no pátio da Fundação Cultural Calmon Barreto, com 25 autores, público de 6 mil pessoas e homenagem a Ziraldo. O crescimento foi progressivo: 8 mil participantes em 2013, 11 mil em 2014, 15 mil em 2015 e aproximadamente 17 mil em 2016. Em 2017, a transferência para o Grande Hotel de Araxá marcou uma nova etapa, com 25.776 participantes, 80 autores e 125 atividades. Em 2018, o público ultrapassou 27 mil pessoas e, em 2019, chegou a aproximadamente 30 mil. Na retomada presencial de 2022, o Festival registrou cerca de 35 mil participantes, seu maior público presencial documentado.

Durante esses anos, passaram pelo Fliaraxá escritores brasileiros e internacionais, entre eles Ziraldo, Adélia Prado, Luiz Vilela, Lya Luft, Milton Hatoum, Mia Couto, Ana Maria Machado, Marina Colasanti, Valter Hugo Mãe, Conceição Evaristo e José Eduardo Agualusa. Cada edição foi organizada em torno de um tema, permitindo que a literatura dialogasse com questões sociais, culturais e históricas. Em 2026, a 14ª edição adotou “Meu Lugar no Mundo”, inspirada no pensamento do geógrafo Milton Santos, patrono do Festival em seu centenário de nascimento.

A formação de leitores tornou-se uma das principais frentes de atuação do Fliaraxá. A programação envolve escolas, professores, crianças e adolescentes, por meio de encontros com escritores, atividades pedagógicas, oficinas e do tradicional Prêmio de Redação e Desenho. Em 2026, a participação alcançou 90% das escolas de Araxá, demonstrando a dimensão adquirida pelo Festival na comunidade escolar. A programação infantojuvenil, os encontros com autores locais e as atividades abertas à população contribuíram para ampliar o acesso à literatura.

A circulação de livros também acompanha essa trajetória. Em 2024, a livraria do Festival ocupou 440 metros quadrados, disponibilizou aproximadamente 30 mil títulos e comercializou cerca de 7 mil exemplares, além de receber 173 sessões de autógrafos. Em 2025, foram realizados mais de 90 lançamentos de livros e, em 2026, 84 obras foram apresentadas ao público em mesas, debates e lançamentos. A presença de editoras, livreiros e autores independentes transformou o Festival em um espaço de circulação da produção editorial brasileira.

Outro diferencial do Fliaraxá é sua presença digital. Desde a primeira edição, em 2012, a programação principal é transmitida ao vivo pelo YouTube, permitindo que os encontros ultrapassem os limites físicos de Araxá e permaneçam disponíveis para consulta. Em 2026, o canal do Festival reunia quase 900 vídeos, cerca de 7 mil inscritos e mais de 400 mil visualizações acumuladas. Durante a pandemia, em 2020, o evento realizou uma edição inteiramente digital, com 101 horas de transmissão contínua e mais de 6,2 milhões de registros de visualização nas redes sociais.

O impacto do Fliaraxá também alcança a economia local. A realização de cada edição mobiliza profissionais de produção cultural, comunicação, tecnologia, montagem, transporte e serviços, além de contribuir para a movimentação de hotéis, restaurantes e estabelecimentos comerciais. Em 2022, aproximadamente 300 profissionais participaram da realização do Festival; em 2024, foram contabilizados 250 profissionais entre empregos diretos e indiretos.

Patrocinado pela CBMM desde sua primeira edição, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, o Fliaraxá consolidou uma atuação continuada em Araxá, associando a programação literária à educação, à valorização dos artistas locais, à acessibilidade e à preservação da memória cultural.

Essa trajetória ajuda a compreender a proposta da 15ª edição. Depois de 14 encontros dedicados a diferentes aspectos da literatura e da sociedade, o Fliaraxá pretende reunir, em 2027, escritores dos 26 estados e do Distrito Federal, sob o tema “Literatura, Território e Imaginação”. A homenagem a Agripa Vasconcelos, nos 70 anos de A Vida em Flor de Dona Beja, estabelece uma ligação entre a história cultural de Araxá e as múltiplas expressões da literatura brasileira.

O Festival que começou em 2012 com 25 escritores e 6 mil participantes chega aos 15 anos com um patrimônio formado por encontros, livros, experiências educacionais e centenas de horas de conversas preservadas em vídeo. Em junho de 2027, essa história terá continuidade no Teatro CBMM do Centro Cultural Uniaraxá, com uma edição dedicada aos territórios reais e imaginados que compõem a literatura brasileira.