Vida e Morte de João Cabral de Melo Neto, patrono do IX Festival Literário de Araxá

Vida e Morte de João Cabral de Melo Neto, patrono do IX Festival Literário de Araxá

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A relação com Carlos Drummond de Andrade, a história, o período como embaixador: a vida do poeta a partir de Antônio Carlos Secchin

Em 10 de setembro de 2020, o jornalista Afonso Borges conversou com Antônio Carlos Secchin, ensaísta, poeta, membro da Academia Brasileira de Letras para falar sobre João Cabral de Melo Neto, um dos patronos do IX Festival Literário de Araxá,  neste ano que se celebra o centenário de nascimento do autor.

Em 37 anos dedicados a estudar a poesia e a vida de João Cabral de Melo Neto, Antônio Carlos Secchin acredita ter sido escolhido pela poesia do autor pernambucano aos 25 anos, quando lecionava Cultura Brasileira em Bordeaux, na França. “Tanto nós fazemos escolhas quanto somos escolhidos pelas escolhas que nós fazemos, de alguma maneira quando comecei a estudar João Cabral eu percebia que era como se ele estivesse escrevendo para mim”, relata Secchin.

O autor diz ser equivocada a ideia de que João Cabral não tem a habilidade de emocionar os leitores em seus textos. “É falso dizer que João Cabral não é um poeta que emociona, ele apenas não precisa estar tomado de emoção quando escreve. A arte da emoção deve ser um efeito, não uma causa”, comenta o ensaísta.

História

Nascido no Recife, em 1920, Cabral estudou em colégio de padre. “Ele confessa o pavor de estudar em colégio religioso porque ele narra que nunca conseguiu acreditar em Deus, mas conseguiu acreditar em Inferno, por causa das imagens”, conta Secchin. Influenciado por um grupo do Recife, o início da carreira literária de João Cabral se dá sob as asas de Willy Lewin, que tinha acesso a livros franceses e a livros surrealistas. Quando chega no Rio de Janeiro fica amigo de Carlos Drummond de Andrade e outros escritores. “Já no terceiro livro, de 1945, ‘O Engenheiro’, João Cabral descobre o estilo que o marcaria: poesia solar, combate à noite e ao mistério, porque a vida tal qual se apresenta com sua luz, seu contorno diurno, suas dificuldades sociais, como real já é suficiente. Para ele, o poeta não precisava buscar nada no interior da alma, ele deveria projetar seu olhar pra fora”, analisa o ensaísta.

No final da década de 1940, tem seu primeiro posto no Itamaraty e vai pra Barcelona, e conhece Juan Miró e passa a desenvolver um pensamento de esquerda, próximo ao Partido Comunista, e já começa a escrever poemas de cunho social, sendo o primeiro “O Cão Sem Plumas”, alguns anos antes de “Morte e Vida Severina”. Ao interceptar algumas cartas de João Cabral, um colega se torna um delator e o Itamaraty começa a investigar o escritor que passa a não mais receber um salário. João Cabral retorna ao Brasil, sustentado pelo pai e escreve “O Rio”, vencendo um prêmio do quarto centenário da cidade de São Paulo, acompanhado de um cheque. O processo do Itamaraty é revertido e Cabral volta pro serviço diplomático e vai servir em Sevilha e tem um encontro sentimental com a cidade.

Morte e Vida

“É um marco não só na poesia de João Cabral, mas eu diria que é um marco também na própria história da poesia brasileira, porque é um dos maiores sucessos de venda”, comenta o membro da Academia. O sucesso estrondoso, entretanto, parecia incomodar o escritor, como revela Antônio Carlos Secchin: “Ele não gostava da desproporção entre o sucesso estrondoso de um livro seu comparativamente à acolhida muito mais modesta do restante da obra dele”. O reconhecido sucesso do livro só aconteceu após uma montagem do Teatro Tuca ter sido premiada na França, e a grande mensagem que a obra passa é um impacto emocional. “Isso no sentido de revelar o Brasil aos brasileiros e passa a mensagem de que apesar de todo o transtorno, “Morte e Vida” é um facho de esperança, dizendo que a sobrevivência e resistência nunca podem abandonar o brasileiro”, comenta Secchin.

Os severinos dos dias atuais

Para Secchin, “os severinos continuam sendo os milhares de brasileiros sem rede de esgoto, os milhares brasileiros que não tem acesso à internet, os milhares de brasileiros que ainda dependem de benesses, muitas vezes oportunistas, do governo atual para ter o mínimo de subsistência, de dignidade”.

Tempo espanhol

Houve duas Espanhas na vida de Cabral. A primeira delas é a do primeiro posto diplomático, na Catalunha, final dos anos 40, que foi extremamente importante no sentido de criar uma aproximação de João com a esquerda, de oposição à ditadura de Franco, e alargar o espectro de cultura com a literatura espanhola e a a pintura. Foi um período de aprendizagem de um universo cultural. A segunda Espanha, na Andaluzia, é um encontro de sensibilidade, de vida popular, de pele. “Se da primeira vez foi cultura, erudição e literatura, a segunda vez passa a ser literatura, cultura e vida concreta. Ele se apaixona pela música flamenca, pela tourada, onde consegue ver a encenação no espetáculo da morte e da vida e se encanta com as procissões da Semana Santa”, lembra Secchin. Em confissões ao ensaísta, João Cabral disse que “Essa foi a época da minha vida que me senti mais feliz”. 

Relação com Carlos Drummond de Andrade

Quando chegou no Rio, e nos três primeiros livros, a relação de Drummond e Cabral era bem próxima, como afagos. Entretanto, no final dos anos 1940, quando João Cabral começa a desenvolver um estilo próprio, que não é só diferente, mas contrário ao de Drummond, em direções que não podiam mais harmonizar, a relação começa a esfriar. As cartas, que antes era quase ininterruptas, se tornaram cada vez mais raras ao ponto que, a partir de 1955 mais nenhuma correspondência é trocada. Apesar disso, os dois autores sempre negaram publicamente que a relação de amizade teria tido um fim mas, para Secchin, “o grande documento [que confirma o afastamento entre os dois] é o silêncio eloquente”.

O Festival Literário de Araxá – Fliaraxá acontece dos dias 28 de outubro a 1° de novembro. A nona edição tem como tema “Arte, Leitura e Tecnologias”.  Além de João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector também é patrona dessa edição, o patrono local é o artista plástico, nascido em Araxá, Calmon Barreto. Os autores homenageados são Conceição Evaristo e José Eduardo Agualusa. Mais informações em  www.fliaraxa.com.br.