Primeiro dia do Fliaraxá, virtual, intenso e instigante
Live "Literatura conectando pessoas". Foto: Daniel Bianchini

Primeiro dia do Fliaraxá, virtual, intenso e instigante

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Por Chico Mendonça  

 

“Todas as noites 200 milhões de pessoas sonham em português.” A frase está na capa do DVD “Lingua, vidas em português”, documentário de Victor Lopes. Ontem, o Fliaraxá 2020 iniciou sua viagem literária em torno, através, com, pelas pessoas que vivem o que será sonhado em português logo mais à noite. Pelo que se viu ontem, mesmo virtual, mesmo com a plateia do Teatro Tiradentes do Tauá Grande Hotel de Araxá vazia, será uma viagem intensa, algumas vezes alegre, outras dolorosa: “abundância de vida, de morte, de dor e de alegria”, como disse Mariana Paz – “excessos que viram poema”. O primeiro dia deste Fli já foi assim, visceral, como tem sido o humor dessa pandemia e suas impossibilidades: um festival que começou a revelar os caminhos alternativos às portas que ela tem fechado. 

Como o caminho de Danilo Miranda, do SESC-SP. Teatro, música e dança chegaram ao público, pelas telas, diretamente das casas de seus criadores, os artistas, antes sem trabalho e renda. Ou o caminho da Monja Coen, indagada repetidas vezes nas várias lives de que tem participado: “como faço para ficar bem?”. Sua resposta: não adianta lamentar que a vida não seja como antes, nem esperar que passe a pandemia para tudo ficar melhor. O presente é que precisa ser bom.

É o que fazem os influencers Mell Ferraz, do blog Literature-se, Pedro Pacífico, do Bookster, e Winnie Bueno, da Winnieteca, três jovens que estão criando uma nova relação com a literatura. A doutoranda em Direito Winnie criou uma biblioteca virtual no Twitter há alguns anos para doação de livros para pessoas negras, depois de constatar que elas, geralmente, vivem à margem da literatura por falta de acesso às obras. Mell, formada em Estudos Literários, há dez anos comenta e indica livros para seus seguidores no Instagram. A pandemia intensificou a atividade em seus perfis. Segundo Pedro, advogado, os livros ajudam a diminuir a distância entre as pessoas na pandemia. Adicionalmente a seu perfil no Instagram, criou um podcast para registrar conversas informais com autores e leitores. Como disse a Monja Coen, “talvez a gente esteja mais junto por estarmos longe um dos outros”. 

O talvez se aplica porque há dúvidas sobre o futuro, o que virá logo mais, no desenrolar da pandemia. O ator e Personalidade Literária do Fliaraxá deste ano, Antônio Fagundes, e o escritor português Valter Hugo Mãe, juntos na última live da noite, confessaram seu pessimismo. A democracia, disseram, está em risco. Fala de Fagundes: “Estamos desgovernados, a tecnologia está nos levando para onde não sabemos, e a pandemia exacerba tudo isso. Precisamos de atenção”. Comentário de Mãe: “É fácil que nos tomem a democracia, porque temos praticado uma cidadania distraída. O que o Brasil está passando é muito grave, mas pode ser a oportunidade para uma nova geração mais consciente”. E profetizou: “Vão surgir heróis”.

Há dúvidas, ainda, sobre o que as pessoas farão com a experiência do isolamento. Elas terão de despertar, porque, nas palavras de Danilo Miranda, mesmo que a solidariedade não venha sendo extraordinária, ela ou alguma coisa terá de surgir para tocar os corações, simplesmente pelo fato de que precisamos uns dos outros. Ele sugere que sejam os dedos preciosos da educação e da cultura o despertador. Este é o campo que trabalha os valores e forma os cidadãos. Precisa ser transformado em núcleo central do desenvolvimento. “Não é a economia que vai trazer uma educação melhor, mas o contrário, é a educação, para a vida, para o trabalho, para a execução de tarefas, que vai melhorar a economia”, resumiu Miranda na live de abertura do Fliaraxá. Horas depois, Valter Hugo Mãe acrescentaria: “É a cultura que faz um lugar se transformar em nação”.

A ajudar tantos milhões de pessoas a criar suas nações existe a língua portuguesa, canal de expressão de habitantes de nove países, oportunidade aberta de compartilhamento da diversidade dos fazeres e dos pensares. Cada nação em auxílio de construção às outras, como só a cultura e a arte são capazes de fazer. O cotidiano das pessoas assentando visões de mundo, assegurando a permanência dessa língua, seja pela atividade de vendedores ambulantes nas ruas, seja pelas palavras do Prêmio Nobel de Literatura José Saramago: “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português”. Um corpo espalhado pelo mundo, segundo o documentário de Victor Lopes, essa língua, símbolo outrora do imperialismo, tem a chance, agora, de ser reinventada como linha de costura da unidade e força dessas nações, aproveitando a potencialidade de 200 milhões de pessoas que, à noite, sonham em português.

Novidades

Valter Hugo Mãe contou que está concluindo seu primeiro livro passado no Brasil. É a história de uma criança que, com seu grupo de negros fugidos da escravidão, no século passado, chega a uma aldeia indígena, antes de escolher um lugar para o quilombo. A criança é batizada Meia-noite pelos índios. Ela e um curumim de sua idade são os protagonistas da narrativa.

Antônio Fagundes vai lançar, em 18 de novembro, o “Tem um livro aqui que você vai gostar”, obra em que dá dicas de leituras.

 

Confira a seguir os melhores momentos do primeiro dia de Fliaraxá.

 

SOBRE O FLIARAXÁ

O Fliaraxá foi criado em 2012 pelo empreendedor cultural e diretor-presidente da Associação Cultural Sempre um Papo, Afonso Borges. As cinco primeiras edições aconteceram no pátio da Fundação Calmon Barreto e, a partir de 2017, o festival passou a ocupar o Tauá Grande Hotel de Araxá, patrimônio histórico do Estado de Minas Gerais, edificação construída em 1942. Naquela edição, nasceu também o “Fliaraxá Gastronomia”. Cerca de 140 mil pessoas passaram pelo festival. Mais de 400 autores participaram da programação.

IX FLIARAXÁ – FESTIVAL LITERÁRIO DE ARAXÁ – 28 DE OUTUBRO A 1.º DE NOVEMBRO DE 2020

Transmissão virtual 24 horas pelos canais:

www.youtube.com/fliaraxá

www.fliaraxa.com.br