Literatura e memória para curar

Literatura e memória para curar

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Por Chico Mendonça

O segundo dia do Fliaraxá passeou pelo tema memória, vasculhando-a sem pudor. Sim, a memória, construção permanente do mundo, nossa identidade cuidadosamente depositada nos livros. A literatura, caixa sagrada dos nossos guardados. Mas e quando ela não pode ser encontrada? A gripe espanhola, mesmo trágica, mesmo tendo dizimado famílias e enlouquecido pessoas por tantas perdas, em 1918 e 1919, não deixou memória na crônica de seu tempo. Machado de Assis, Olavo Bilac, Lima Barreto e João do Rio, entre outros escritores da época, não deixaram registros. Para escrever o livro A bailarina da morte, Lilia Shwarcz e Heloisa Starling tiveram de recorrer à cobertura factual dos jornais da época e a teses e dissertações de abordagens municipais.
Da mesma forma, a epidemia de varíola em Fortaleza, no fim do século XIX, só foi “descoberta” quando, em 1994, operários do serviço de saneamento da cidade encontraram dezenas de ossadas durante escavação. O jornalista e escritor Lira Neto, durante conversa com Ignácio de Loyola Brandão e Heloisa Starling, contou que trabalhava em um jornal da cidade e, somente depois da ligação de um senhor, entenderam que se tratava dos mortos da varíola. Não havia memória da tragédia, embora tenham sepultado 1004 cadáveres em um só dia. Na verdade, 238 ficaram para o dia seguinte e tiveram que ser disputados com urubus e cães para, enfim, encontrarem descanso numa vala comum.
Tanto uma quanto outra epidemia tiveram heróis esquecidos – pessoas com atuação decisiva no combate às doenças. O médico Samuel Libânio, no caso da espanhola, em Belo Horizonte, e o farmacêutico Rodolfo Teófilo, em Fortaleza, que solitariamente vacinou os moradores da periferia da cidade, mesmo impiedosamente atacado pelas autoridades regionais. Ambos tiveram sua memória resgatada pelo livro de Heloisa e Lilia, e pelo de Lira, “O poder e a peste – a vida de Rodolfo Teófilo”. Entre semelhanças e diferenças com os estragos do atual coronavirus há um detalhe cintilante: o anúncio de uma suposta droga salvadora contra a espanhola, o sal de quinino, em cuja composição se encontra uma tal cloroquina. Não prosperou, porém, o tal embuste, porque, na ocasião, não houve autoridade que desprezasse a ciência ou zombasse da morte. Na varíola cearense, os doentes de varíola eram pobres, como hoje é atribuído somente aos fracos — entre idosos e portadores de comorbidades – o risco de vida. Para os demais, não passa, essa Covid-19, de uma gripe no diminutivo.
No extremo oposto, quando a memória encontra seu espaço sagrado, o resultado é o surgimento de referência forte o suficiente para facilitar a identificação de aberrações, abusos e egoísmos se aproximando. Assim, da gaveta de sua mesa na redação do jornal Última Hora, Ignácio de Loyola Brandão resgatou artigos, matérias, fotos e desenhos vetados pelo censor de plantão da ditadura militar. Esse arquivo de rejeitos acabou transformado, anos depois, no primeiro livro da trilogia de romances distópicos: Zero, depois Não verás país nenhum, e Dessa terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela.
Na terceira referência, a conversa entre Olinda Beja, Elisa Lucinda e Abdula Sila, mediada por Tom Farias, tratou do pertencimento. Nascida na ilha de São Tomé e Príncipe, de pai europeu e mãe africana, Beja foi levada bem pequena para Portugal, antes de conseguir se tornar filha da África. Ali, magoada por manifestações de racismo, ela cresceu sem conseguir encontrar sua identidade e sem alternativa. Até que, 37 anos depois, foi levada de volta por uma irmã, arrebatada pela verdade escondida durante sua vida inteira: sua mãe biológica estava viva. Sem pertencer a nenhum dos dois continentes, não foi fácil de início, mas Olinda ficou deslumbrada com a África. Escreveu 20 livros para construir sua identidade.
Reunidos os quatro escritores em torno da mesa virtual, havia uma celebração, uma alegria. “Eu chego cantando onde quer que eu vá, principalmente em lugar que ninguém canta, porque cantar faz parte da nossa narrativa, que precisa ser resgatada”, sorria Lucinda. Uma narrativa que se insurge contra a memória da colonização branca, contra “essas estátuas que, por todos os lugares, nos olham”, anotou Tom, autor da biografia de Carolina de Jesus. “Construir um futuro melhor que o passado, com perdão, mas sem esquecimento”, sublinhou Abdula. “A diáspora fez uma África imensa no mundo. Foi ruim, mas estamos espalhados por todos os lugares”, disse Lucinda. Todos os quatro pretos, politicamente corretos, celebram sua identidade, sabedores, por experiência e memória, que perdê-la significa enlouquecer ou soçobrar no mar infinito, que são a mesma coisa.

Confira os melhores momentos do segundo dia de Fliaraxá.

SOBRE O FLIARAXÁ

O Fliaraxá foi criado em 2012 pelo empreendedor cultural e diretor-presidente da Associação Cultural Sempre um Papo, Afonso Borges. As cinco primeiras edições aconteceram no pátio da Fundação Calmon Barreto e, a partir de 2017, o festival passou a ocupar o Tauá Grande Hotel de Araxá, patrimônio histórico do Estado de Minas Gerais, edificação construída em 1942. Naquela edição, nasceu também o “Fliaraxá Gastronomia”. Cerca de 140 mil pessoas passaram pelo festival. Mais de 400 autores participaram da programação.

IX FLIARAXÁ – FESTIVAL LITERÁRIO DE ARAXÁ – 28 DE OUTUBRO A 1.º DE NOVEMBRO DE 2020

Transmissão virtual 24 horas pelos canais:

www.youtube.com/fliaraxá

www.fliaraxa.com.br