Djamila Ribeiro e Xico Sá falam sobre racismo estrutural na literatura
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Djamila Ribeiro e Xico Sá falam sobre racismo estrutural na literatura

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Desde a infância, o pai de Djamila Ribeiro a ensinou o apreço pelos livros, pela educação e a sempre questionar. Isso foi a base para que ela construísse a sua formação como filósofa, escritora e militante do movimento negro e feminista. Junto de Xico Sá, jornalista e escritor, que também recebeu incentivo desde a infância para ter contato com os livros, participou da mesa “Cultura, crença e preconceito”. Em meio a tantos assuntos fundamentais, conversaram principalmente sobre racismo estrutural na literatura e o poder da língua. Atualmente, Djamila Ribeiro continua ministrando aulas na PUC-SP, está escrevendo um novo livro e desenvolvendo projetos, e Xico Sá aventurou-se em oferecer um curso sobre crônica, mesmo sem experiência como professor, segundo ele.

A língua portuguesa

A língua é fator de dominação. “Quem coloniza impõe a sua cultura, e a língua é uma dessas imposições”, destacou Djamila Ribeiro ao refletir sobre o tema-conceito do IX Fliaraxá. Exemplo disso são os preconceitos linguísticos contra pessoas que não têm acesso à educação e, por isso, não falam a língua “corretamente” de acordo com as normas cultas. Para exemplificar isso, Djamila retoma estudos de feministas negras e de autoras que faziam questão de escrever sem seguir tais regras.

“Muitas autoras feministas negras, sobretudo Lélia Gonzalez, escreviam de uma forma que desobedecia às regras da gramática normativa deliberadamente justamente por isso. Carolina Maria de Jesus também foi uma delas. A gente não entende que a língua é uma forma de manutenção de poder”, destaca Djamila. Em resumo, a imposição da língua ainda exclui duplamente as pessoas, segundo Ribeiro. Quando não têm acesso à educação e depois quando não falam ou escrevem de acordo com a norma.

Racismo estrutural na literatura

A arte é reflexo da sociedade. Dessa forma, até na literatura o racismo estrutural atua. Xico Sá, durante a vida e durante os seus cursos de literatura, percebeu que autores negros, principalmente mulheres, são apagados da história. Nas antologias de crônica que usa para ministrar os cursos, por exemplo, há poucas ou nenhuma mulher negra. “Alguém pode justificar falando que as antologias são editadas com aquilo que era publicado no jornal, mas por que esses autores não publicavam no jornal?”, questiona Xico.

Djamila também percebeu isso durante a sua formação em Filosofia na universidade. Sempre interessada em questões raciais, questionava professores sobre a não abordagem de filósofos negros e de filósofas negras na grade, a resposta vinha igualmente racista com a afirmativa de que “o curso estuda a filosofia pura”. 

Mesmo assim, Djamila acredita que o mercado editorial ensaia mudanças e está abrindo espaço para a pluralidade. Exemplo disso é a coleção Feminismos Plurais, da qual faz parte. O projeto já publicou mais de 8 livros de autores negros. “Estamos muito felizes desse caminhar mais plural da literatura negra”, afirmou.

Em breve, o bate-papo completo estará disponível no nosso canal do YouTube. Os escritores ainda comentaram a situação atual do Brasil e detalharam a sua formação. Enquanto isso, confira a programação em tempo real, que está no ar 24 horas por dia.

SOBRE O FLIARAXÁ

O Fliaraxá foi criado em 2012 pelo empreendedor cultural e diretor-presidente da Associação Cultural Sempre um Papo, Afonso Borges. As cinco primeiras edições aconteceram no pátio da Fundação Calmon Barreto e, a partir de 2017, o festival passou a ocupar o Tauá Grande Hotel de Araxá, patrimônio histórico do Estado de Minas Gerais, edificação construída em 1942. Naquela edição, nasceu também o “Fliaraxá Gastronomia”. Cerca de 140 mil pessoas passaram pelo festival. Mais de 400 autores participaram da programação.

IX FLIARAXÁ – FESTIVAL LITERÁRIO DE ARAXÁ – 28 DE OUTUBRO A 1.º DE NOVEMBRO DE 2020

Transmissão virtual 24 horas pelos canais:

www.youtube.com/fliaraxa

www.fliaraxa.com.br

Texto por Jaiane Souza/Culturadoria