
O curador Tom Farias anuncia, em sua coluna da Folha, do dia 23/2/2022, Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista do Brasil, como Patrona do Fliaraxá. Leia abaixo!
Quem foi Maria Firmina, negra, pobre e a primeira romancista do País
2022 marca o bicentenário da escritora maranhense, que também foi professora e lutou contra a escravidão
O ano de 2022 está definitivamente marcado pelas efemérides. De um lado, o retumbante centenário da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo; do outro, os 200 anos da Independência do Brasil, com o famoso grito do Ipiranga, de D. Pedro 1.º, evento que ainda patina.
Mas 2022 é também o ano que marca o bicentenário de uma mulher, Maria Firmina dos Reis. Negra, pobre, oriunda de uma família escravizada, Maria Firmina passaria à história como a primeira romancista brasileira, mas foi também professora, poeta, cronista, contista e defensora de ideias de liberdade, de coloração republicana, que ainda hoje impactam a sociedade maranhense e brasileira.
Maria Firmina nasceu na ilha de São Luís do Maranhão, em 11 de março de 1822, filha da “mulata forra” Leonor Felipa dos Reis e do comerciante João Pedro Esteves, sócio do proprietário da mãe – o comendador Caetano José Teixeira, falecido em 1819 –, considerado um homem muito rico, conhecido por ser grande comerciante e proprietário de terras.
Até 2016, pensava-se que o dia e o ano do nascimento de Firmina fossem 21 de dezembro de 1825, data corrigida graças ao trabalho da pesquisadora Dilercy Aragão Adler junto aos arquivos públicos do estado do Maranhão. O equívoco histórico sobre o registro de nascimento levou muitos historiadores e pesquisadores a erro, inclusive no que diz respeito aos festejos e às homenagens à escritora a partir desse ano de referência.
Uma dessas gafes está registrada na inauguração do seu busto, em 1975, na Praça do Pantheon, que reúne monumentos a outros grandes nomes da história maranhense. Feito pelo artesão Flory Gama, a partir de relatos sobre a imagem de Maria Firmina, de quem não se conhece um único retrato, a peça é alusiva à passagem dos 150 anos de nascimento da escritora, que, na verdade, deveriam ter sido comemorados três anos antes, ou seja, em 1972.
Sobre a infância da escritora nada se sabe, a não ser que, em 1830, com sete para oito anos, ela e a mãe deixam São Luís e passam a residir na cidade de São José de Guimarães – terra onde faleceu, vítima de naufrágio, em 1864, outro grande poeta de sangue negro: Gonçalves Dias, com quem Firmina iria se corresponder.
Por parte da mãe, no entanto, Firmina é prima do gramático e professor de latim Francisco Sotero dos Reis, 20 anos mais velho do que ela. Embora considerada autodidata, Firmina acessou o magistério público como professora não “leiga”, mas “concursada”.
Na cidade de Guimarães, chegou a fundar uma escola mista, isto é, misturando meninos e meninas, ato revolucionário, o que lhe causou alguns transtornos e perseguições. Numa denúncia incerta no jornal maranhense O País, em setembro de 1885, o cidadão Dionízio Marcos Albino, de Guimarães, ameaçado por policiais, informa que “D. Maria Firmina dos Reis, professora aposentada, e outra senhora que com ela vinha do sítio Capitua ouviram boas chufas deles”.
A estreia na literatura deu-se em 1859, aos 27 anos, com o livro Úrsula. A obra, que teve certo destaque à época, com repercussão nos jornais, saiu impressa escondendo o verdadeiro nome de sua autora, que assinou simplesmente “Uma maranhense”, como pseudônimo, embora toda a imprensa local a soubesse como tal.
Considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil, o romance marca o pioneirismo de Firmina também como precursora da temática abolicionista na Literatura brasileira, pois ela antecede, em livro, Castro Alves, que publicou Espumas flutuantes em 1871, e Joaquim Manoel de Macedo, que lançou As vítimas-algozes em 1869. Tido por muitos como nosso “romance negro”, nele Firmina traz um discurso narrativo a partir da escravidão, sob a perspectiva afrodescendente, tornando-se a primeira escritora afro-brasileira.
Autora de vasta obra literária, só começou a ser revisitada e republicada nos últimos dez anos. É o caso de Úrsula, que passou da décima edição, e do romance Gupeva, além do famoso conto “A escrava”, de 1887, ano anterior à abolição da escravatura. Na data, para festejar, ela compôs o Hino à liberdade dos escravos, pois também era compositora e musicista. Em uma das estrofes, escreve assim: “Salve Pátria do Progresso!/ Salve! Salve Deus a Igualdade!/ Salve! Salve o sol que raiou hoje,/Difundindo a Liberdade!”.
Firmina publicou muita poesia, parte delas em volume, como é o caso de Cantos à beira-mar, de 1871, e crônicas, charadas, composições musicais. Sua fortuna crítica é bem expressiva e deve aumentar ainda mais a par dos importantes trabalhos que têm sido realizados por estudiosos, como Rafael Balseiro Zin – que deve lançar, em parceria com Anna Faedrich, A mente ninguém pode escravizar, organização de estudos –; Eduardo de Assis Duarte; a já citada Dilercy Aragão Adler; Andreia Oliveira, com o infantil Maria Firmina, a menina abolicionista; e Luccioni Furtado, autor do Memorial de Maria Firmina dos Reis: prosa completa & poesia (Editora Uirapuru), em dois volumes.
A memória afetiva sobre a atuação de Maria Firmina dos Reis na vida pública ou no jornalismo é bastante significativa. Quando foi tomar posse do cargo de professora, a mãe, muito entusiasmada, contratou um transporte, palanquim ou liteira, muito usado pelos portugueses, carregado por negros escravizados, para levar a professora ao Paço Municipal para assinar a nomeação. A filha rebelou-se e disse para a mãe Leonor: “Negro não é animal para se andar montado nele”. Foi a pé, apertando o passo.
Sempre que surgia uma mulher inteligente, dizia-se: “Eis uma Firmina”. Foi mulher irreverente, à frente do seu tempo, como negra e intelectual. Teve vários filhos e filhas adotivos de mulheres negras escravizadas ou pobres.
Atravessou a primeira década do século 20 como referência moral e profissional para o povo e para o magistério maranhense. Uma aluna disse que era “energética”, mas que falava baixo, não aplicava castigos corporais, muito comuns à época, sobretudo a famigerada palmatória.
Parda, pequena, rosto arredondado, olhos escuros, cabelos crespos e grisalhos, presos à nuca, assim a descreveram aos 85 anos, contrastando com a imagem ainda muito divulgada de uma falsa Firmina, em que se vê uma mulher branca, traços europeus e bem mais nova, na verdade uma estranha confusão com a cronista gaúcha Maria Benedita Bormann (1853-1895), que assinava com pseudônimo de Délia e tinha escritos ousados para as mulheres do seu tempo, alguns de tom erótico, como o romance Lésbia, de 1890.
Em 1911, a seis anos de sua morte, foi visitada pelo governador Luiz Antônio Domingues da Silva, que se fez acompanhar de sua comitiva. A autoridade deparou com uma mulher cega e doente, e data, dessa visita em diante, a assistência que passou a ter até o fim de sua vida.
Morreu no dia 11 de novembro de 1917, de velhice, na casa de Mariazinha, mãe de um dos seus filhos de criação. Como disse, não se conhece qualquer imagem de Maria Firmina, mas mesmo não a conhecendo fisicamente, ela deixou um legado imprescindível para as gerações futuras e costumava declarar que um ser podia ser submetido e humilhado, mas a sua mente não, pois “a mente, essa ninguém pode escravizar.”
Em trecho do conto “A escrava”, escreveu: “Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será, um grande mal. Dela, a decadência do comércio, porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura, porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado; ainda, dela, vem o opróbrio, a vergonha, porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres; por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós.”
Maria Firmina dos Reis deixou-nos importantes lições de vida. Cabe a nós hoje segui-las e glorificá-las, como parte das comemorações pelos seus 200 anos, que ocorrerá em várias partes, a começar como Patrona da próxima edição do Fliaraxá, agora de 11 a 15 de maio, em Minas Gerais.