A programação nacional deste sábado (17), no Teatro CBMM, reuniu escritores, pesquisadores e artistas durante a tarde e à noite. Com mesas de Gustavo Ziller, Airton Souza, Zukiswa Wanner, Geni Núñez, Nina Santos e José Eduardo Agualusa, o Fliaraxá respondeu, por diferentes caminhos, a pergunta que orienta esta edição do festival: Qual é o seu Lugar no Mundo?

Montanhas e travessias 

Abrindo a programação, o produtor, atleta e escritor mineiro Gustavo Ziller apresentou “Escalando Sonhos: o que senti no topo do mundo”, em conversa mediada por Ricardo Ramos Filho.

Ao revisitar sua experiência como o vigésimo sexto brasileiro a escalar o Monte Everest, Ziller descreveu o topo da montanha a partir de uma dimensão espiritual. Falou das bandeiras de oração budistas, das oferendas e da presença simbólica do espaço, que definiu como um lugar de êxtase e contemplação.

Mas a conversa rapidamente ultrapassou a aventura esportiva. Para o autor, a montanha não representa exatamente seu lugar no mundo, e sim um território capaz de revelar ausências diárias e provocar revisões pessoais.

Ao relembrar a separação dos pais e a mudança inesperada da mãe para a Itália, Ziller contou como a experiência o marcou profundamente e como, anos depois, passou a compreender esse episódio por outro olhar, reconhecendo também a coragem materna naquela decisão.

“As maiores montanhas que a gente escala estão dentro da gente”, afirmou, aproximando a experiência do Everest de uma travessia emocional e interior.

Memória e ternura

Na sequência, o escritor Airton Souza apresentou O mar é longe, sob mediação de Matheus Leitão.

Finalista dos prêmios Oceanos e São Paulo de Literatura, e vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, Airton conduziu uma conversa marcada pela memória e pela experiência social que atravessa sua obra. Matheus Leitão abriu o encontro destacando a força do romance e sua capacidade de comoção.

Ao falar do livro, Airton percorreu lembranças de extrema vulnerabilidade, como o assassinato do irmão, a morte dos pais e a violência doméstica vivida dentro de casa, especialmente contra sua mãe. 

O autor descreveu esse período como um mergulho em um abismo difícil de atravessar e relacionou essas experiências aos temas que frequentemente aparecem em sua literatura, como grilagem, garimpo e os processos de violência presentes no interior do país.

“Eu enfrentei todos os modos de violência que existem nesse país”, conta o escritor.

Apesar da dureza das memórias, a conversa encontrou na ternura um de seus pontos centrais. Airton relembrou a tia que deixava de comer para alimentá-lo e falou desse gesto silencioso como a expressão mais verdadeira do cuidado. Para ele, é justamente essa experiência humana – a ternura – que sustenta sua escrita:

“Eu só posso escrever alguma coisa (…) se tiver alguma coisa nela marcada pela ternura”

Masculinidades e enfrentamentos

Em uma das mesas mais aguardadas da tarde, a escritora zambiana Zukiswa Wanner conversou com Bianca Santana, autora de “Apolinária”, sobre seu livro de lançamento Homens do Sul.

Entre gargalhadas que preenchiam o Teatro CBMM e comentários bem-humorados, Zukiswa falou sobre a construção dos personagens masculinos do romance e observou que mulheres costumam compreender profundamente os homens e as estruturas que os formam — muitas vezes mais do que eles próprios.

Ainda, a autora comentou que, em sua experiência pessoal, homens frequentemente demonstram mais vulnerabilidade diante das mulheres do que entre si, percepção que permeia a narrativa de Homens do Sul e ajuda a deslocar visões rígidas sobre masculinidade.

A conversa abordou também o novo livro da escritora zambiana, Diário de uma Flotilha por Gaza, escrito a partir da experiência em embarcações que seguiam em direção ao território palestino sob risco de bombardeio. Sem perder a graça que marcou toda a mesa, Zukiswa relembra essas experiencias e apela pela liberdade do povo palestino.

Outros mundos possíveis

Sob mediação de Marcelino Freire, a ativista indígena, psicóloga e escritora Geni Núñez apresentou Felizes por Enquanto: Escritos Sobre Outros Mundos Possíveis.

Primeiro livro de poesia da autora, a obra abriu espaço para uma conversa sobre linguagem, política e liberdade criativa. Geni explicou que a escrita poética também surgiu como uma forma de escapar dos enquadramentos impostos pela produção acadêmica e ampliar as possibilidades de abordar temas sociais e existenciais.

Ao longo da conversa, literatura e defesa dos povos indígenas caminharam lado a lado. A autora discutiu preservação ambiental, violência territorial e a relação profunda entre terra e existência.

“Quem nos tira a terra, nos tira a vida”

Além das reflexões políticas, Geni leu poemas que abordam amor, relações afetivas e a dificuldade humana em aceitar a finitude dos vínculos e das experiências. Ao final, foi aplaudida de pé pelo público do teatro.

Homenagem ao patrono Milton Santos 

Patrono do festival em seu centenário de nascimento, Milton Santos foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros e referência internacional da geografia crítica e humana. Nascido em 1926, em Brotas de Macaúba, na Bahia, construiu uma trajetória que atravessou fronteiras e campos do conhecimento. 

Formado inicialmente em Direito pela Universidade Federal da Bahia e doutor em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, dedicou sua obra a pensar território, cidadania, migrações, desigualdades e as formas como as pessoas habitam e compreendem o mundo.

Mais do que compreender o espaço como dimensão física, Milton Santos propôs uma leitura do território como experiência vivida  — perspectiva que inspira o tema do 14º Fliaraxá, Meu Lugar no Mundo. 

Foi a partir dessa herança intelectual que Nina Santos conduziu sua fala. Pesquisadora e professora dedicada aos estudos de democracia digital e comunicação, ela compartilhou com o público o desafio de crescer sob a referência de um pensador cuja obra marcou profundamente o pensamento social brasileiro.

“É uma posição muito difícil, a de ser neta de Milton Santos”

Nina contou que, ao longo de sua trajetória acadêmica, buscou construir um caminho próprio, tentando inclusive se afastar, em alguns momentos, da comparação inevitável com o avô. Ainda assim, falou com emoção sobre a admiração que mantém por sua história e pela potência de suas ideias.

Sob mediação de Sérgio Abranches, a homenagem percorreu tanto a dimensão intelectual quanto a memória familiar de Milton Santos. Ao compartilhar sua experiência como neta do geógrafo, Nina ajudou a aproximar do público um pensador cuja obra permanece atual e profundamente conectada às perguntas que deram vida a esta edição do Fliaraxá.

O resto é agulha

Encerrando a programação, o escritor angolano José Eduardo Agualusa apresentou Tudo sobre Deus, sob mediação de Sérgio Abranches. Descrito pelo mediador como um romance-enigma, o livro acompanha um homem que, diante da proximidade da morte, se isola em uma igreja abandonada no deserto do Namibe para escrever, recordar e buscar respostas.

Ao comentar o título da obra, Agualusa retomou a epígrafe do livro.

“Tudo que aprendi sobre Deus cabe no buraco de uma agulha. O resto é a agulha.”

O autor explicou que sua escrita costuma nascer de imagens, e contou que a origem do romance está justamente na lembrança de uma igreja solitária encontrada no deserto angolano. A partir dessa imagem, começou a construir uma narrativa sobre solidão, arrependimento, perdão e despedida.

A conversa seguiu ainda por reflexões sobre o tempo, memória e as transformações do jornalismo e da crítica literária.

Entre montanhas, desertos, florestas, memórias familiares e territórios afetivos, a programação nacional de sábado percorreu muitos lugares possíveis. No Teatro CBMM, a literatura apareceu não como resposta definitiva, mas como uma forma de dialogar sentimentos, escutar experiências, revisitar trajetórias e imaginar outros modos de estar no mundo.