
Com cerca de 5 mil pessoas circulando pelos diferentes espaços do festival e recorde de público na abertura da 14ª edição, o Fliaraxá começou transformando Araxá em um grande espaço de encontro entre a comunidade local.
Auditórios cheios, estudantes circulando entre mesas literárias, crianças comentando histórias pelos corredores e caravanas de escolas vindas de diferentes cidades da região marcaram o primeiro dia da programação. À noite, a mesa do rapper Djonga lotou completamente o Teatro CBMM, ocupando os cerca de 600 lugares do auditório.
Segundo um dos curadores locais do festival, Rafael Nolli, o crescimento da participação regional tem sido um dos destaques desta edição. “Estamos falando de um público muito expressivo da cidade de Araxá, maior do que nos anos anteriores, aliado a uma presença forte de escolas de cidades vizinhas”, afirmou.
Além de caravanas de escolas araxaenses, o festival recebeu, desde o primeiro dia de evento, estudantes e professores vindos de cidades vizinhas, como Uberaba, Perdizes, Perdizinha e Santa Juliana, evidenciando o alcance do evento para além do município.
O movimento foi percebido ao longo de toda a programação. Pela manhã e tarde, crianças e adolescentes ocuparam o Teatro CBMM e o auditório da Biblioteca Pública Municipal, participando de contações de histórias, oficinas, mesas literárias e rodas de conversa.
Para a professora de literatura Lívia Paiva Ribeiro, do SESI Uberaba, o contato direto dos estudantes com o ambiente do festival transforma a relação deles com a literatura.
“É a terceira vez que nós estamos participando. Os meninos têm gostado bastante. É um momento de imersão cultural para eles”, contou a professora.
Segundo Lívia, a experiência complementa aquilo que já é trabalhado dentro da escola: “Nós trabalhamos a literatura dentro da sala de aula, mas ver na prática um evento cultural como esse é muito importante. Essas rodas de conversa, a troca e essa imersão do universo literário é muito rico para eles não somente academicamente, mas também para a formação deles enquanto seres humanos.”
Entre os estudantes presentes na programação estava Ana Lara Borges de Paiva, de 14 anos, aluna do SESI Uberaba, que participou da mesa Arquitetura do Afeto: arte e educação, com Cirlei Garcia e Amanda Abdala. Em sua primeira vez no festival, ela contou que o evento superou as expectativas.
“Eu tô achando muito interessante, até já comprei um livro”, contou a jovem.
Leitora e também escritora, Ana relatou que mantém o hábito da escrita: “Eu escrevo muitas histórias da minha cabeça, e muitos poemas também.”
A presença de crianças e jovens na programação foi destacada também pelos autores convidados. Para a escritora Ina Arefieva, que lança o livro “A Vassoura da Bruxa da Casa da Vovó” nesta edição, a participação ativa dos estudantes ajuda a fortalecer vínculos entre literatura e pertencimento: “É importante eles fazerem algo diferente do que já fazem no dia a dia deles”.
Segundo ela, quando as crianças se reconhecem dentro do festival, a experiência ganha outro significado. “Eles verem uma pessoa no palco que diz ‘eu também estudei nessa escola’. É importante eles verem o rostinho deles como participantes do Fliaraxá. Todas essas coisas fazem a diferença.”, completa a ilustradora.
A artista visual, pesquisadora e escritora Marlette Menezes, vencedora do Prêmio Jabuti e uma das convidadas da programação, também ressaltou a importância de aproximar a comunidade do universo literário.
“É uma maneira da comunidade ter acesso e contato com autores (…) uma aproximação com um universo que é fundamental na vida das pessoas, para o imaginário e para a cultura.” Marlette destacou ainda a relevância de levar uma programação literária de grande porte para cidades do interior.
“Trazer essa qualidade para o interior é um ganho enorme.”
Ainda, a autora comentou sobre a formação de leitores e chamou atenção para a importância da leitura para todas as idades, não somente para as infãncias.
“As crianças precisam muito disso, mas eu acho que os adultos também precisam muito ler. Urgentemente”, frisa Menezes.
Ao longo do primeiro dia, o clima de participação coletiva se estendeu pelos diferentes espaços do festival. Entre filas para autógrafos, estudantes circulando com livros recém-comprados e crianças comentando as histórias que haviam acabado de ouvir, o Fliaraxá transformou a literatura em experiência compartilhada.
Mais do que acompanhar mesas e debates, o público ocupou o festival como espaço de convivência, descoberta e pertencimento — em sintonia com o tema desta edição, Meu Lugar no Mundo.