A programação nacional do Fliaraxá reuniu, nesta sexta-feira (15), no Teatro CBMM, escritores brasileiros e internacionais em mesas que discutiram temas como oralidade, relações familiares, pertencimento, ancestralidade e crise climática. Com participações de Carlos Eduardo Pereira, Marcelino Freire, Bianca Santana, José Eduardo Agualusa e Sérgio Abranches, a noite foi marcada por reflexões sobre memória, identidade e as diferentes formas de narrar a experiência humana.
Abrindo a noite, o escritor Carlos Eduardo Pereira conversou com Marcelino Freire sobre o romance “Agora Agora”, obra que acompanha três gerações de uma família negra carioca e discute violências concretas e simbólicas atravessadas pelo tempo.
Em sua primeira participação no Fliaraxá, Carlos falou sobre a própria trajetória até a literatura. Vindo de uma família humilde, contou que cresceu em um ambiente onde o trabalho artístico não era visto como possibilidade profissional. Formado inicialmente em História, trabalhou como professor durante anos até se aposentar por invalidez após se tornar cadeirante. Mais tarde, iniciou uma segunda graduação, em Letras, aproximando-se definitivamente da escrita literária.
Ao ler um trecho de “Agora Agora”, o autor relacionou o romance ao tema desta edição do festival, Meu Lugar no Mundo, afirmando que seu lugar está ligado ao presente, ao instante vivido.
“Meu lugar no mundo é o agora imediato”.
Durante a conversa, Carlos destacou ainda a importância da oralidade em sua escrita e defendeu uma literatura mais acessível, capaz de dialogar também com quem não possui hábito de leitura. Para ele, ouvir as pessoas, observar as relações e valorizar os diálogos são partes fundamentais do processo de escrita. “Escritor não é só quem publica, é quem escreve”, afirmou ao falar sobre a importância de incentivar novos autores.
A mesa seguinte aprofundou justamente as relações entre linguagem, silêncio e afeto. Mediado pelo jornalista e escritor Matheus Leitão, Marcelino Freire apresentou ao público o romance “Escalavra”, livro construído a partir das memórias de infância e da relação com o pai.
Autor pernambucano conhecido por obras como “Contos negreiros” e “Nossos ossos” e “Angu de Sangue”, Marcelino conduziu uma conversa recheada de humor, teatralidade e sensibilidade. Ao falar sobre o processo de criação de seu mais novo romance, explicou que a obra é fruto desse lugar de “não comunicação” vivido dentro de casa, em uma família numerosa do sertão.
Em um dos momentos mais marcantes da mesa, o escritor comentou que o modo como o pai se dirigia aos filhos se parecia com a forma como falava com os animais, revelando uma relação atravessada por silêncios e dificuldades de conexão.
“O jeito que meu pai falava com os bichos, ele falava com a gente”, contou o pernambucano.
O teatro também ocupou espaço importante na mesa. Marcelino contou que sua relação com a cena influenciou profundamente sua literatura e, em um momento amplamente aplaudido pelo público, realizou um monólogo hipnotizante inspirado na própria mãe, misturando humor, memória e performance.
Durante a leitura de um trecho de “Escalavra”, o autor resumiu uma das ideias centrais da obra ao afirmar que escrever é uma maneira de finalmente dizer aquilo que nunca se conseguiu verbalizar.
“Escrever é dizer, pela segunda vez, aquilo que nunca se teve coragem de dizer.”
A programação da noite seguiu com a participação da escritora Bianca Santana e do escritor angolano José Eduardo Agualusa, em conversa mediada por Marcelino Freire.
Autora de Apolinária, Bianca apresentou ao público um romance que fala sobre memória, deslocamento e reinvenção feminina. A obra acompanha a trajetória de uma mulher negra que deixa o interior da Bahia em direção a São Paulo, em uma narrativa marcada pelas experiências de migração e reconstrução da própria identidade.
Ao comentar o tema desta edição do festival, Bianca afirmou que seu lugar no mundo está ligado ao agreste pernambucano, região pela qual demonstrou profundo carinho e identificação afetiva.
A conversa entre os três autores também aproximou literatura e música como formas de narrar experiências humanas, memórias e territórios. Agualusa falou sobre as relações entre escrita, musicalidade e oralidade em sua trajetória literária, tema recorrente em sua obra, marcada pela presença de referências musicais africanas e pelas conexões entre diferentes culturas da língua portuguesa.
Encerrando a programação nacional da noite, Sérgio Abranches participou de uma conversa mediada por Afonso Borges sobre o romance “A franja do fim do mundo”, obra que mistura ficção científica, distopia e crítica política para imaginar uma sociedade sobrevivente após o colapso climático.
Durante a mesa, Abranches refletiu sobre o papel da ficção especulativa na compreensão do presente e dialogou com clássicos do gênero, como Duna, de Frank Herbert, romance vencedor dos prêmios Hugo e Nebula. A trama acompanha Paul Atreides, herdeiro de uma poderosa família nobre, que é lançado em meio a disputas políticas, traições e conflitos por poder em um império intergaláctico.
Ao final da conversa, Abranches definiu a ficção como um espaço capaz de revelar verdades profundas sobre a experiência humana.
“A ficção é a verdade da mentira, ou a mentira da verdade.”
Com diferentes estilos, trajetórias e perspectivas, os autores convidados transformaram o palco do Teatro CBMM em um espaço de diálogo amplo. Da oralidade presente nas relações familiares às reflexões sobre futuro e crise climática, a programação nacional desta sexta-feira mostrou como a literatura continua sendo uma ferramenta de escuta, interpretação do mundo e construção de novas possibilidades de existência.
Fliaraxá
Realizado pela Associação Cultural Sempre um Papo com patrocínio da CBMM, via Lei Rouanet e apoio da Academia Araxaense de Letras e TV Integração, o 14º. Fliaraxá – Festival Literário Internacional de Araxá – celebra os 100 anos de nascimento de Milton Santos, patrono desta edição e homenageia 3 personalidades: José Eduardo Agualusa, que vem de África, a professora Maria de Lourdes Bittencourt de Vasconcellos e o Mestre General de Congado Jerônimo Pereira de Lima, ambos personalidades da história de Araxá. O tema do evento é “Meu Lugar do Mundo” e assinam a curadoria, Sérgio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius.
Serviço
14.º Festival Literário Internacional de Araxá – Fliaraxá
De 14 a 17 de maio de 2026, quinta a domingo
Local: Teatro CBMM do Centro Cultural Uniaraxá (Av. Ministro Olavo Drummond, 15 – São Geraldo)
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Entrada gratuita
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br