A Associação Cultural Sempre um Papo vem a público manifestar seu veemente repúdio às declarações irresponsáveis divulgadas sobre o Festival Literário Internacional de Araxá – Fliaraxá, durante o programa “Cidade Urgente”, da Rádio Cidade, veiculado no dia 8 de abril, por três comentaristas.

Ao longo de 14 anos de atuação contínua na cidade, o Fliaraxá consolidou-se como um dos projetos culturais mais importantes de Minas Gerais e do Brasil, com uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, a formação de leitores e o acesso democrático à cultura. São milhares de pessoas impactadas a cada edição — cerca de 35 mil presencialmente por ano — além de um público ampliado por transmissões digitais.

O festival sempre se pautou pela seriedade na gestão dos recursos, pela transparência institucional e pelo respeito à comunidade araxaense. Todas as ações são realizadas dentro da legalidade, com rigorosa prestação de contas e acompanhamento dos órgãos competentes. Por isso, recentemente, por força de lei municipal, o Fliaraxá foi incluído no Calendário Oficial da Cidade.

Causa estranheza que um projeto com esse histórico seja alvo de afirmações que não correspondem aos fatos. Ali foram feitas imprecisões, calúnias, enganos, informações erradas e a mais completa falta de conhecimento simples e honesto da programação do 14º. Fliaraxá. Críticas são legítimas, mas não podem se sustentar em desinformação ou na desconsideração do impacto concreto de um trabalho reconhecido nacionalmente.

A 14ª edição do Fliaraxá, que acontece em maio de 2026, reafirma esse compromisso ao propor uma reflexão contemporânea a partir do tema “Meu Lugar no Mundo”. Inspirado no pensamento do geógrafo Milton Santos, patrono desta edição no centenário de seu nascimento, o festival convida o público a pensar identidade, pertencimento e a relação entre indivíduo, território e sociedade.

A programação reúne autores e pensadores de diferentes áreas, promovendo encontros que dialogam com os desafios do nosso tempo. O escritor angolano José Eduardo Agualusa é o autor homenageado internacional, trazendo ao festival uma obra marcada pela reflexão sobre deslocamento, memória e identidade. No âmbito local, a professora Maria de Lourdes Bittencourt de Vasconcellos é reconhecida por sua contribuição à formação educacional e cultural da cidade, junto com Jerônimo Pereira de Lima, o General da Guarda de Congado de Araxá.

Participam desta edição nomes como Aírton Souza, Alexandre Coimbra Amaral, Bianca Santana, Carlos Eduardo Pereira, Djonga, Geni Núñez, Gustavo Ziller, Leila Ferreira, Marcelino Freire, Matheus Leitão, Nina Santos e Sérgio Abranches. Além disso, conta com a participação dos convidados internacionais: o angolano José Eduardo Agualusa, e a sul-africana Zukiswa Wanner, promovendo encontros que estimulam diálogo direto entre autores e público. Os curadores são Sérgio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius.

Participação do Djonga: “Meu Lugar no Mundo”

Com relação à palestra que o artista Djonga fará no evento, cabe ressaltar que ele se destaca no cenário do rap nacional por sua densidade temática, potência lírica e compromisso com questões sociais urgentes. Longe de promover qualquer tipo de apologia à violência ou ao crime, suas letras operam como instrumentos de denúncia, reflexão e afirmação identitária.

Djonga constrói sua obra a partir de uma perspectiva crítica sobre a realidade brasileira, especialmente no que diz respeito ao racismo estrutural, à desigualdade social e às vivências nas periferias. Sua escrita é direta, muitas vezes contundente, e por isso pode causar impacto imediato. No entanto, essa força não deve ser confundida com incentivo ou exaltação de práticas violentas. Pelo contrário: o que o artista faz é expor, com crueza, contextos que já existem e que frequentemente são invisibilizados.

Ao abordar temas como violência urbana, confronto com a polícia ou tensões sociais, Djonga não celebra esses elementos — ele os problematiza. Suas músicas funcionam como narrativas que revelam as contradições de uma sociedade desigual, dando voz a experiências que raramente ocupam o centro do debate público. Nesse sentido, sua obra se aproxima mais de um testemunho crítico do que de qualquer forma de apologia.

Além disso, há em seu trabalho uma forte dimensão de afirmação da identidade negra, de valorização da autoestima e de construção de novos imaginários. Djonga também fala sobre conquistas, ancestralidade e resistência, ampliando o alcance de suas letras para além da denúncia, em direção à reconstrução simbólica.

A presença do Djonga no Fliaraxa reforça o compromisso do festival com a diversidade e o debate público, evidenciando que as críticas mais intensas surgem justamente quando iniciativas como o projeto Muros Invisíveis — com professores e afroempreendedores — já realizados pelo evento – ganham espaço e quando se levantam, de forma clara, as bandeiras da equidade, do antirracismo e da democracia.

Portanto, interpretar suas músicas como apologia é ignorar a complexidade de sua proposta artística. O que Djonga realiza é um exercício potente de leitura da realidade, utilizando o rap como ferramenta de questionamento, consciência e transformação.

Mais do que um evento, o Fliaraxá é um espaço de encontro, formação e transformação social, que ao longo de sua história já recebeu alguns dos mais importantes nomes da literatura brasileira e internacional, contribuindo para posicionar Araxá no mapa cultural do país.

Seguiremos trabalhando com a mesma dedicação, ética e responsabilidade que marcaram esses 14 anos, reafirmando nosso compromisso com a cultura, a educação e a população de Araxá.

Cordialmente,

Afonso Borges

Associação Cultural Sempre um Papo

Fliaraxá