Texto por Myriam Scotti

Foto por @sirbag_

Publicado originalmente no portal O Odisseu – acesse aqui.

Festivais literários e de afetos

Durante o Festival, a cidade inteira parece se vestir de palavras. Há atividades para todas as idades e conversas que nos convidam a pensar, além das trocas entre autores que alimentam reflexões profundas sobre o tempo em que vivemos.

Quando recebi o convite para participar, pela segunda vez, do Festival Literário de Araxá, senti uma alegria imediata. Estar novamente em um evento organizado por Afonso Borges é um privilégio: ele sabe, como poucos, transformar os dias dedicados à literatura em um ambiente extremamente acolhedor para quem participa. Afonso cria um espaço de cuidado não apenas para o público leitor, mas, sobretudo, para os escritores convidados; e é talvez por isso que, a cada edição, temos a sensação de nos tornar uma verdadeira família.

Durante o festival, a cidade inteira parece se vestir de palavras. Há atividades para todas as idades e conversas que nos convidam a pensar, além das trocas entre autores que alimentam reflexões profundas sobre o tempo em que vivemos. É preciso ressaltar o trabalho da curadoria. A cada festival, a equipe tem se superado, acertando precisamente na escolha dos temas que serão debatidos. O time responsável, formado por Bianca Santana, Sérgio Abranches, Jeferson Tenório e Leo Cunha, é uma combinação de sensibilidade e inteligência, o que se reflete na qualidade das discussões, e principalmente, na diversidade das vozes que ecoam pelos corredores do evento.

O tema da 13ª edição do festival, Memória, Literatura e Encruzilhada, orientou as mesas e debates, que giraram em torno dessas propostas. A cada conversa, era possível perceber como o passado, o presente e as múltiplas identidades se entrelaçavam, revelando os caminhos possíveis que a literatura abre diante das incertezas do nosso tempo.

Vale destacar que a cidade se prepara com meses de antecedência. Há clubes de leitura que se reúnem para debater os livros dos autores homenageados, sob coordenação do escritor Rafael Nolli, além de um concurso de redação que mobiliza escolas inteiras. Esse é, talvez, o momento mais emocionante: assistir a crianças e adolescentes subindo ao palco para receber prêmios por seus desenhos e textos inspirados no tema do festival é testemunhar o futuro da literatura acontecendo diante dos nossos olhos.

Nesta edição, os escritores homenageados foram o brasileiro Itamar Vieira Jr. e a ruandesa Scholastique Mukasonga, que nos presentearam com falas potentes sobre questões raciais, território e pertencimento. Suas palavras ressoaram fundo, lembrando-nos de que a literatura continua sendo um espaço de resistência, memória e humanidade.

Já nos bastidores, o clima é de descontração e afeto. As conversas que surgem entre um almoço e outro, as risadas que ecoam no jantar, a cantoria que encerra a noite, tudo acontece na chamada Casa dos Autores, um espaço de convivência onde as relações se aprofundam e novas amizades nascem para durar uma vida inteira.

É impossível sair de lá sem renovar a esperança de que a humanidade, afinal, ainda tem jeito. Agora, sigo na expectativa de participar do Festival Literário de Itabira, que acontecerá de 29 de outubro a 2 de novembro; mais uma oportunidade de reencontro com as palavras, as pessoas e os afetos que fazem da literatura um território de pertencimento e alegria.

Aliás, tenho percebido o aumento no número de festivais literários pelo país, e isso é um sinal bonito de vitalidade cultural. Esses eventos são fundamentais para criar diálogos entre quem escreve e quem lê. Aproximar escritores do público leitor é essencial para construirmos pontes de reflexão e crítica sobre quem queremos ser como espécie, que ambiente desejamos habitar e que futuro pretendemos construir.

Entre tantas possibilidades de entretenimento, é alentador perceber que a literatura ainda desperta atenção, curiosidade e encantamento. Apoiar os festivais literários é, portanto, um gesto de resistência, e especialmente, de esperança.