
O rapper e compositor mineiro Djonga lotou o Teatro CBMM na noite desta quinta-feira (14), durante sua participação na 14ª edição do Fliaraxá. Com os cerca de 600 lugares ocupados, o encontro reuniu público de diferentes idades em uma conversa sobre arte, dores, afetos, paternidade e pertencimento.
A participação do artista aconteceu poucos dias após a homenagem recebida na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no último dia 11 de maio, em reconhecimento à sua contribuição para a luta antirracista.
Com mediação do psicólogo e escritor Alexandre Coimbra do Amaral, a mesa “Meu Lugar no Mundo” aproximou público e artista em um diálogo descontraído e ao mesmo tempo profundamente pessoal.
Logo no início da conversa, Djonga falou sobre sua passagem pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), onde cursou sete períodos de História. Ao relembrar a experiência acadêmica, destacou o impacto da universidade em sua formação. “Lá eu aprendi a ler o mundo”, afirmou.
Apesar da academia, ele diz que sua forma de se comunicar e se expressar no mundo continua muito mais próxima à sua raiz. Fruto de uma família humilde, Djonga ressaltou a importância de manter conexão com o lugar de onde vem e com as experiências que atravessam sua música.
Acho que já nasci artista
Ao ser questionado sobre quando percebeu que era artista, Djonga respondeu de forma espontânea: “Acho que já nasci artista”.
O rapper contou que, apesar da timidez, sempre sentiu necessidade de interagir com o mundo — inclusive como forma de enfrentar a própria insegurança. Também relembrou o hábito de escrever histórias ainda na infância e refletiu que talvez essa experiência também tenham moldado sua relação com a arte.
Durante o encontro, Alexandre Coimbra questionou Djonga sobre a sua relação e admiração por Cazuza, apontado por ele como uma de suas maiores referências artísticas. Respondeu ter assistido “umas 80 vezes” ao filme do cantor e revelou que o contato com a trajetória do artista foi decisivo para que desejasse seguir profissionalmente na música.
“Eu sou muito à flor da pele”, comentou ao explicar a tatuagem com a palavra “Exagerado”, em referência à música de Cazuza, e refletiu sobre inquietação, mudanças constantes e a tentativa de lidar com os excessos da própria personalidade.
Em sequência, Alexandre Coimbra perguntou como Djonga se sente ao perceber que ocupa um lugar de referência para tantas pessoas presentes no auditório.
“Fico com vergonha. No show estou acostumado, mas num auditório já é um pouco diferente (…) são sentimentos complexos”, respondeu o rapper mineiro. Em seguida, o artista alertou para os riscos de ser visto de forma idealizada: “É perigoso me ter como referência”, disse, reforçando que é um ser humano comum e que ninguém deve ser colocado em posição de perfeição ou endeusamento.
RAP, memória e justiça social
Ao longo da mesa, Alexandre Coimbra e Djonga também aproximaram a experiência do RAP e da História como formas de preservar memórias e impedir apagamentos sociais.
O artista comentou que seus discos também funcionam como registros históricos, especialmente ao narrar experiências periféricas, dores coletivas e vivências da população negra no Brasil.
A conversa avançou para temas ligados à masculinidade, afetos e paternidade. Ao falar sobre os filhos, Djonga compartilhou um dos relatos mais emocionantes da noite: “Às vezes eu penso que se eu não fosse pai eu já teria morrido”.
Segundo ele, a paternidade trouxe senso de responsabilidade, prudência e também uma relação mais afetuosa com a vida. Sobre a filha caçula, Iolanda, afirmou que a experiência o tornou mais sensível e afetuoso. Já ao comentar sobre o filho mais velho, Jorge, disse enxergar nele um espelho de si mesmo.
Sensibilidade como força
Djonga também falou sobre experiências de racismo vividas durante a infância e adolescência, especialmente no ambiente escolar. Comentou episódios em que se sentiu preterido por causa da cor da pele e do cabelo e refletiu sobre como essas marcas atravessam relações afetivas e sociais ao longo da vida.
Ao abordar o tema, destacou a importância de homens negros discutirem sentimentos, dores e afetos. “Homens são ensinados a ser fortes, mas existe força em ser sensível”, afirmou.
Ao final da mesa, Alexandre Coimbra retomou o tema central da 14ª edição do Fliaraxá — Meu Lugar no Mundo — e perguntou ao artista qual seria, afinal, o seu lugar no mundo.
A resposta simples, mas sensível de Djonga rendeu aplausos em todo o auditório: “Ah, eu sou o mundo inteiro”.
Em seguida, completou: “Meu lugar no mundo é perto de quem eu admiro.”
A resposta encerrou a conversa sintetizando muitos dos caminhos percorridos ao longo da noite: pertencimento, memória, afeto, identidade e as relações que ajudam a construir quem somos.