Nossas trajetórias – Dos escritores negros ao protagonismo feminino nos 200 anos da Independência

Nossas trajetórias – Dos escritores negros ao protagonismo feminino nos 200 anos da Independência

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No último dia do Fliaraxá, o Festival reuniu nomes como Oswaldo de Camargo, Miriam Alves,  Igiaba Scego, Roberto Parmeggiani, Simone Paulino,  Carla Madeira, Rosiska Darcy de Oliveira, Suely Machado, MV Bill, Preto Zezé e Angélica Ferrarez para tratar de temas como o papel do escritor negro, olhares sobre o racismo, protagonismo feminino na literatura e trajetórias.

Na mesa intitulada “Quem tem medo do(a) escritor(a) negro(a)?”, Tom Farias, que mediou a mesa, fez essa provocação a Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor com diversos livros publicados, e a Miriam Alves, autora de nove livros individuais e membro do Quilombhoje.

Camargo aceitou a provocação e rebateu com outra pergunta: “será que podemos dizer que o escritor é quem escreve?” Para ele, em um País onde apenas 3% da população é considerada leitora, é dramático ser escritor, como aconteceu, por exemplo, com Maria Firmina dos Reis, que teve seus textos esquecidos por 100 anos.

E completou: “eu não considero escritor de fato aquele que só escreve. O escritor é obcecado pela escrita. E respondendo à pergunta, quase ninguém tem medo do escritor negro, porque não se tem medo do que não se conhece”, diz Camargo. Na opinião dele, um branco não pode escrever sobre literatura negra, porque não tem o negror em sua pele.

Miriam Alves discordou da opinião de Oswaldo de Camargo ao afirmar que, a partir da literatura, se cria um imaginário em que os negros passam a ser pessoas e deixam de ser pivetes, prostitutas, e isso ajuda a mostrar o papel do negro na sociedade. “Eu espero que ninguém tenha medo do escritor negro”, concluiu ela.

O debate ainda revelou o papel salvador da literatura na vida de muitas pessoas. “Eu atribuo essa fortaleza que tenho hoje, aos 85 anos, à literatura. E digo mais: a literatura me salvou dos meus momentos de tristeza”, finalizou Camargo.

Um encontro possível

Na mesa de debates realizada às 13 horas, Simone Paulino conversou com Roberto Parmeggiani – escritor, tradutor e educador que nasceu em Bolonha e que dedicou parte da sua a vida a trabalhar nas relações de pessoas com algum grau de desabilidade – e com Igiaba Scego, jornalista e escritora nascida em Roma, de origem Somali, e que vem se dedicando a criar mecanismos de compreensão do outro.

A mesa apresentou o tema: “Descolonizar o olhar sobre o outro: um encontro possível entre Itália e Somália”, em que Parmeggiani falou sobre as dificuldades que as pessoas têm para viver em sociedade, o que pode ser aplicado também às fronteiras e com as palavras.

Ele ainda chamou a atenção para que a palavra “deficiência” seja trocada por “desabilidade” naqueles casos em que uma pessoa tenha uma menor habilidade em realizar alguma coisa. Isso porque, segundo ele, “a pessoa é uma pessoa. A desabilidade é algo que podemos diminuir modificando o contexto”.

Igiaba Scego complementou a fala de Roberto, trazendo também a questão do racismo para a mesa. Ela afirmou que escrever é uma forma de matar certas palavras, no sentido de dar a elas outro sentido ou mesmo cancelá-las em alguns casos. Isso porque algumas palavras são instrumentos do medo, do racismo, do preconceito, da colonização, da escravidão e que, de acordo com essa história por trás da palavra, elas precisam ser retiradas do nosso vocabulário e trocadas por outras como uma forma de descolonização.

Protagonismo feminino e suas diferenças

Suely Machado comandou a mesa “Elogio da diferença: literatura e protagonismo feminino”, composta por Carla Madeira e Rosiska Darcy de Oliveira. A mediadora falou sobre a capacidade de Rosiska refletir e escrever sobre o tempo presente e de Carla Madeira em mexer com a emoção de seus leitores.

Rosiska Darcy de Oliveira, autora do livro Elogio à diferença, que deu nome a essa mesa de debates, contou que esse foi seu primeiro livro publicado em português depois da volta do exílio ao qual foi submetida. Para ela, falar sobre o tempo presente é sempre um grande desafio, porque sua obra é muito ligada à sua história de vida, pois ela traz suas angústias. Assim, seu livro Liberdade é “um ato de resistência e um ato de esperança”, pois ela se viu no dever de escrevê-lo.

Carla Madeira começou sua trajetória na literatura pela música, chegando inclusive a compor algumas canções. Depois, ao estudar e trabalhar com publicidade, acabou se aproximando da escrita. Sobre os tempos atuais, afirmou que a experiência da pandemia acabou por fazer com que as pessoas se envolvessem mais com a literatura, com as artes e com cursos.

Além disso, as autoras falaram sobre como a própria tecnologia acabou por possibilitar uma aproximação das pessoas em clubes de leitura, palestras e encontros on-line durante a pandemia.

Os 200 anos Independência e seus reflexos na trajetória das personagens do nosso tempo

No debate que encerrou a 10ª edição do Fliaraxá, o rapper, cineasta e escritor MV Bill conversou com Preto Zezé, presidente nacional da Central Única das Favelas (Cufa), mediados pela historiadora Angélica Ferrarez.

MV Bill e Preto Zezé contaram um pouco sobre suas histórias e obras. “Pra mim, escrever livro é muito especial e um processo que demanda mais tempo. E, de fato, minha trajetória como escritor começou com a escrita de samba-enredo, que começou por conta de uma questão social”, comenta MV Bill. Já Preto Zezé, em seu livro Das quadras para o mundo, contou sobre sua trajetória individual como presidente da Cufa e do seu trabalho na entidade.

MV Bill fez questão de comentar os 200 anos da Independência do Brasil. “Hoje estamos muito longe daquilo que seria considerado o ideal, talvez não tenhamos muito a comemorar (sobre a Independência), mas muito a refletir, principalmente nós os excluídos: pretos, indígenas e pobres”, avalia o rapper.

Ainda falando sobre a Independência, Preto Zezé fez uma avaliação de que existiram dois processos de independência do Brasil, o das elites brancas de um País que deu certo, mas onde está arraigada a desigualdade, e um processo em que, hoje, existe uma agenda racial. “Precisamos olhar a Independência como uma forma de averiguar o passado para construir o presente, senão ficamos presos a essa elite que impõe uma história única”, refletiu ele.

Sobre o Fliaraxá

O Festival Literário de Araxá terminou neste domingo. Durante cinco dias, o público pôde conhecer de forma presencial ou digital diversos autores. Também fizeram parte da programação do evento atrações musicais, contação de histórias, espetáculos infantis, oficina de slam, lançamento de livros, exposições artísticas, prêmio de redação e espaço gastronômico.

A 10ª edição do Fliaraxá foi apresentada, em caráter de exclusividade, pelo Ministério do Turismo e pela CBMM, com o patrocínio da Cemig e do Itaú e apoio da Rede Mater Dei de Saúde, Grupo Zema, Prefeitura Municipal de Araxá, Fundação Cultural Calmon Barreto, Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Turismo e Inovação Tecnológica, Central Única das Favelas – Cufa – de Araxá, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura, da Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo.