Nélida Piñon manda uma carta para o Fliaraxá

Nélida Piñon manda uma carta para o Fliaraxá

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Para Afonso Borges.
​Afonso, querido – tenho o direito de chamá-lo de querido, até muito mais, se eu quiser me atrever!
​Mas porque o conheço de tão longa data, nós nos conhecemos, nos abraçávamos, nos beijamos, fomos sempre muito carinhosos um com o outro; faz bem, faz bem evocar as lembranças bonitas da nossa vida. Portanto, vi você começando, tendo a coragem de dar os primeiros passos, depois os passos seguintes, os passos foram aumentando, você saiu do epicentro de BH – como vocês dizem –, do Sempre Um Papo, essa iniciativa tão bonita, feliz e generosa.
​De repente, foi pra São Paulo. De São Paulo, você foi para outros lugares, depois Araxá. Fui lá duas vezes, pelo menos. Vi Manu nascendo, graças a Deus ela veio linda e é a cara do pai. A cara do pai! Uma menina a quem eu quero muito bem.
​Então, esse crescimento seu fez muito bem porque foi um crescimento que tem a ver com a divulgação da literatura nos festivais, na presença dos escritores para o público, tornou-se um ato natural, tanto que todo mundo começou a fazer encontros, convidar os escritores, cada qual com a sua possibilidade, com seus recursos, e todos nós fomos.
​Os escritores foram valentes, corajosos, apoiaram todas essas iniciativas. O escritor brasileiro emprestou, além de seu talento literário, a confiança em você e nos seus parceiros semeados pelo Brasil à fora.
​O seu trabalho é pioneiro, é generoso, foi valente, atrevido, eu diria. Você é um homem extremamente atrevido, e a sua ambição é uma ambição necessária, é ambição que nos ajuda a viver, a dar os passos seguintes, a sermos pioneiros. Você é o que o Gilson Amado, o fundador, praticamente, da TV Brasil, dizia isso de mim, Nélida Piñon. Eu era jovem para o meu primeiro livro, com o cabelinho cortado – não sei se nessa época eu estava com o cabelinho cortadinho –, ele dizia assim: “você é uma vanguardeira!”
​Achei lindo, mas não entendi muito bem o que poderia ser tal designação a mim. Mas, hoje, com a minha idade, com a minha experiência, com o meu profundo amor e aliança com o Brasil, eu sei o que é ser vanguardeiro.
​Você foi vanguardeiro desde o início, você teve a coragem de assumir a voz poética e criativa que o Brasil precisava naquele momento. E agora foi parar, além de Araxá – já não sei mais por onde que você anda –, você reuniu os escritores portugueses amados, os angolanos, os de Moçambique, toda essa linda e farta terra que abraça a língua portuguesa, que é o nosso patrimônio, que é a nossa memória retumbante.
​ Nem sei o que dizer para lhe agradecer e para aplaudir os seus feitos. Quero só dizer o seguinte: grata, eu estou muito grata, sobretudo na minha idade poder reconhecer o seu talento, acho que nós não podemos ser mesquinhos, temos que dizer o que pensamos, temos que deixar consignada a grandeza do outro, porque é o único modo de você talvez perceber um traço de grandeza no seu coração.
​Afonso Borges, você é formidável, você é maravilhosamente perigoso. E é esse o perigo que nós precisamos para enfeitiçar o Brasil, para trazê-lo para o centro da arte e da cultura, para fazer o Brasil um país que nós queremos e que haveremos de fazer.
​Grata por tudo, estou comovida, estou comovida, estou falando assim nesse improviso irresponsável, que as vezes me caracteriza, mas eu quero ter a coragem de errar, eu quero ter a valentia de dizer aquilo que está brotando do meu coração, nesse momento são essas palavras. Eis o verbo português!
Um beijo, querido!
Nélida Piñon

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