Não haverá desenvolvimento algum sem cultura
Foto: Daniel Bianchini/Divulgação

Não haverá desenvolvimento algum sem cultura

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Por Chico Mendonça

O quarto dia do Fliaraxá poderia ser retratado por “Os vivos e os mortos”, último livro de José Eduardo Agualusa, de acordo com sinopse feita pelo próprio, durante sua live de autor homenageado. O romance narra a história de escritores, reunidos para uma conferência na Ilha de Moçambique, que se veem isolados do resto do mundo por uma tempestade que caiu no continente e interrompeu todo transporte e toda comunicação. Prospera o boato de que o mundo acabou, e os escritores, depois de um tempo de estupefação, decidem que é chegada a hora de recriá-lo por meio das palavras, assim como está no Gênesis: no início era o Verbo.
Muito apropriado para essa pandemia, muito adequado para o Brasil, onde a intolerância, o culto à ignorância e o desmonte das políticas públicas já inspiram revisão ao título de Ignácio de Loyola Brandão: “Já não vemos país nenhum”. Com o olhar fixo no horizonte, nos debruçamos sobre as perspectivas econômicas do pós-pandemia. Como personagens de Agualusa, o economista Leandro Valiati, especializado em economia da cultura, e Pierre André Ruprecht, diretor da Organização Social SP Leitura, vaticinaram, durante a Mesa “Fazer Cultura no Modo Pandemia”, que a empatia, a alteridade, a interioridade e a diversidade – ou seja, o amálgama das diferenças – serão os valores do novo mundo que virá. O desenvolvimento dependerá da oferta e da demanda desses valores, bem antes que da capacidade de gerar emprego e renda das atividades econômicas. Não é pensata, é pesquisa. Se o Brasil vai pegar essa onda, é outro capítulo.
“A capacidade lúdica de enxergar as diferenças e as possibilidades das relações humanas são fundamentos para o desenvolvimento”, disse Valiati, cuja experiência estende-se de favelas a instituições internacionais. Segundo ele, a cultura é um instrumento de construção de bem-estar, de inclusão, da capacidade de pensar e de outras condições para o desenvolvimento. O desafio da cultura é, exatamente, rever o atual discurso que situa as atividades culturais nos terrenos do “valor inestimável” e da “geração de emprego e renda” para explorar o espaço que corre no meio dessas vertentes, qual seja o da formação da pessoa e sua capacidade de entender o mundo.
A sociedade terá de fazer escolhas para sair da crise e, com base nesse novo discurso, a cultura deve se apresentar como parte essencial da estratégia de retomada. Fazer-se forte, pela voz da sociedade, para deixar a condição de subfinanciamento, a situação de concentração de consumo, a dificuldade de acesso e de formação de novos públicos, típicos de antes da pandemia, para se tornar tema de um ecossistema, como acontece na Inglaterra e na França. Nesse arranjo, em que o equilíbrio das ações é fundamental, governo, organizações de classe, profissionais da cultura e empresas desempenham papéis complementares. Do governo, espera-se uma política pública de incentivo e desincentivos para orientar as ações dos diferentes agentes sociais.
Responsável pela gestão das bibliotecas públicas de São Paulo e do sistema de bibliotecas públicas municipais desse estado, Ruprecht conta que a biblioteca moderna tem por missão não apenas dispor de bom acervo de livros, mas prestar serviço e oferecer condições de aprendizagem. “A literatura e a leitura estimulam as habilidades do pensamento, que é fundamental para o desenvolvimento econômico. Não se trata mais de apenas formar o consumidor de cultura.” Simples assim, afinal não é possível mais conviver com a ideia de que haverá desenvolvimento sem dele participarem todos os brasileiros. A desigualdade, o racismo e toda e qualquer intolerância são características do país que está deixando de ser visto, não mais reconhecido como lugar de ser por todos os brasileiros.

 

 

SOBRE O FLIARAXÁ

O Fliaraxá foi criado em 2012 pelo empreendedor cultural e diretor-presidente da Associação Cultural Sempre um Papo, Afonso Borges. As cinco primeiras edições aconteceram no pátio da Fundação Calmon Barreto e, a partir de 2017, o festival passou a ocupar o Tauá Grande Hotel de Araxá, patrimônio histórico do Estado de Minas Gerais, edificação construída em 1942. Naquela edição, nasceu também o “Fliaraxá Gastronomia”. Cerca de 140 mil pessoas passaram pelo festival. Mais de 400 autores participaram da programação.

IX FLIARAXÁ – FESTIVAL LITERÁRIO DE ARAXÁ – 28 DE OUTUBRO A 1.º DE NOVEMBRO DE 2020

Transmissão virtual 24 horas pelos canais:

www.youtube.com/fliaraxa

www.fliaraxa.com.br