Independência e Abolição: a violência que persiste ainda hoje contra mulheres e negros

Independência e Abolição: a violência que persiste ainda hoje contra mulheres e negros

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Por Denise Fernandes

O sábado, 14 de maio, foi de deleite para os amantes das artes que frequentaram a 10ª edição do Fliaraxá. Foram diversas atrações para crianças, jovens, adultos e idosos nos palcos do Festival, com programação diversificada para todos os gostos, como oficinas literárias, oficinas de slam, contação de histórias, roda de conversa sobre poesia, sarau, “papoeira” (roda de capoeira + bate-papo), apresentações musicais e espetáculo de dança, além das mesas de debates que aconteceram de forma phygital – presencial e on-line – com diversos autores.

200 anos da Independência, 200 livros dessa história

Logo no início da tarde, Afonso Borges, criador do Fliaraxá, conversou com o autor  português José Manuel Diogo sobre o projeto “200 anos, 200 livros”, tema deste debate. O projeto faz referência ao bicentenário da Independência e aos livros que compuseram esse período.

Fizeram parte da curadoria do projeto mais de 150 pessoas de diversas áreas, como história, sociologia, ciência política, direito, antropologia, jornalismo, literatura, fotografia e artes visuais, que escolheram 200 livros imprescindíveis para entender o Brasil.

Para José Manuel, a lista foi escolhida “sem nenhum viés político, sem nenhum viés ideológico, para chegar a um index que é um ponto de partida, não um ponto de chegada” para compreender a história do País.

Brasil, um país de faz de conta em termos de preconceito racial

Na sequência, o tema do debate foi  “Oh! a mente! Isso sim ninguém pode escravizar”: caminhamos para um novo abolicionismo?, com o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor de livros sobre a história do Brasil, como 1808, 1822 e 1889, e Djamila Ribeiro, autora dos livros Lugar de fala, Quem tem medo do feminismo negro?, Pequeno manual antirracista, dentre outros. A mediação ficou por conta de Tom Farias, que também é um dos curadores desta edição do Fliaraxá.

Para Laurentino Gomes, “nós vivemos em um País de faz de contas, desde a época da Independência e que continua ainda hoje. A realidade brasileira é muito diferente do que se vê ainda hoje em Brasília. A realidade é muito semelhante à da epoca da escravidão em termos de desigualdade social, de falta de respeito com a sua população, especialmente indígena e afrodescendente. Por isso, é importante discutir nossa identidade de fato”. E Djamila Ribeiro completa: “é importante entender o racismo como um sistema de opressão, é importante desfazer essa ideia de que o racismo é quando um indivíduo discrimina outro individuo negro, mas sim entender o processo histórico do racismo, os processos que criaram essas desigualdades”.

Pequenas violências, grandes violências contra a mulher

Ainda na tarde de sábado, penúltimo dia do Fliaraxá, um importante tema foi trazido para a discussão: “Violência contra a mulher”. Participaram da mesa a romancista, ensaísta e contista Tatiana Salem Levy,  o desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) Wagner Cinelli e a professora e autora do livro Quem é negra/o no Brasil?, Najara Costa, mediados por Tom Farias.

Levy destacou que esse é um tema pujante e que é inconcebível que, em pleno século XXI, tantas mulheres ainda sofram com violência,  tanto grandes, como nos casos de estupro, quanto pequenas, de se acharem superiores a elas. Najara complementou afirmando que nossa sociedade é essencialmente patriarcal e que esse modelo perdura ainda hoje na diferença de criação de meninos e meninas dentro das próprias famílias. Para o desembargador do TJRJ, Wagner Cinelli, com o “femirracídio” – feminicídio praticado contra a mulher negra –, a mulher negra ainda sofre mais violência racial, violência de gênero e violência por parte de companheiros e ex-companheiros. “Esses temas são urgentes e precisam ser sempre debatidos, seja no Fliaraxá, seja em nossa sociedade, como forma de empoderar essas mulheres sobre o tema”, afirmou Cinelli.

200 anos de uma pioneira

“Homenagem a Maria Firmina dos Reis: 200 anos de uma pioneira” foi o tema da última mesa da tarde de sábado. Para falar sobre a Patrona do evento, compuseram a mesa o juiz de Direito de São Luís-MA, Agenor Gomes, que também é autor da biografia Maria Firmina dos Reis e o cotidiano da escravidão no Brasil, e Luciana Diog, criadora e gestora de conteúdo do portal Memorial de Maria Firmina dos Reis e da Revista Firminas – Pensamento, Estética e Escrita – voltada à produção intelectual e artística de mulheres negras.

O Fliaraxá acontece até hoje, 15 de maio, com programação em formato phygital. Toda a programação é gratuita, tanto a presencial quanto  a exibida pelas redes sociais do Festival: @fliaraxa. O evento também conta com programação infantil, prêmio de redação, exposição artística, livraria, lojinha do Fliaraxá e espaço gastronômico.

Serviço: 10.º Festival Literário de Araxá – Fliaraxá

De 11 a 15 de maio, de quarta-feira a domingo

Tema: “Abolição, Independência e Literatura”

Formato phygital – Transmissão em tempo real pelas plataformas do Festival: Youtube e Facebook – @fliaraxa

Locais: Grande Hotel, Teatro Municipal Maximiliano Rocha, Parque do Cristo e Fundação Cultural Calmon Barreto.

Informações: @fliaraxa – www.fliaraxa.com.br