De Úrsula a Torto arado: a importância da escrita negra
Jeferson Tenório, Itamar Vieira Junior e Tom Farias conversam sobre "De Úrsula a Torto arado" Narrativas sobre a escravidão"

De Úrsula a Torto arado: a importância da escrita negra

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Por Denise Fernandes

Na noite de sábado, 14 de maio, penúltimo dia do Fliaraxá, foi marcada por importantes debates acerca de identidade, racismo, genocídio e escravidão, que não foi de fato revogada com a Lei Áurea e a Abolição da Escravatura brasileira.

Temas caros que, cada vez mais, ganham espaço na mídia, em que todos os dias é possível ver casos de racismo no futebol, denúncias de trabalho análogo à escravidão e, como observa Tom Farias, não são análogos, mas é a própria escravidão de fato, principalmente de mulheres negras.

Antes, o que era velado está cada vez mais escancarado, de forma institucionalizada e estrutural, que vai desde a falta de oportunidades no mercado de trabalho até a má distribuição de renda, a baixa escolaridade, a violência e o homicídio contra a população negra.

Na mesa que abriu os trabalhos da noite, denominada “Escrevivência e identitarismo”, a escritora, ficcionista e ensaísta Conceição Evaristo e a jornalista Flávia Oliveira debateram como as minorias, não em termos absolutos, mas no lugar de fala, são desacreditadas frente a grupos que reproduzem um discurso liberal, porém que não reconhecem essa identidade étnica.

Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti pelo livro Olhos d’água, comentou sua gastura, parafraseando Guimarães Rosa, acerca dessa exclusão de gênero, de raça e de classe social. “Enquanto a nossa voz não for ouvida, não for valorizada, não vamos conseguir uma mudança. Porque há uma diferença muito grande entre falar e ser ouvido”, observa Evaristo.

Literatura como lugar de fala

A segunda mesa da noite foi mediada por Henrique Rodrigues, que conversou com Jeferson Tenório e Godofredo de Oliveira Neto sobre como a literatura pode contribuir para o entendimento de si mesmo e a busca de saídas para a situação atual.

Sobre o tema “Conversas literárias”, Godofredo de Oliveira, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pontuou que a literatura é uma mediadora da cultura coletiva e que o excesso de fechamento em si mesmo fez com que os leitores abandonassem os livros. Para ele, a retomada da proximidade entre leitor e literatura dá-se em razão das obras atuais, que trazem questões mais reais e próximas ao cotidiano do leitor.

Jeferson Tenório, autor de Avesso da pele, trouxe ao debate sua percepção sobre o assunto de acordo com sua experiência como professor e afirmou que a melhor forma de se conseguir introduzir a leitura na escola é conhecendo os alunos, porque não existe uma fórmula única para que se consiga mostrar para o aluno que ler é bom. Conhecendo a realidade do aluno, é possível que sejam feitas ações mais individualizadas e acertadas para chamar a atenção dos estudantes. No entanto, o autor chama a atenção para o “excesso de realidade” dos livros atuais, pois a literatura também deve servir como escape da realidade, que às vezes é tão dura, levando o leitor para lugares mais fantasiosos.

O debate seguiu demonstrando a importância de professores e escritores atuarem para que a arte, a cultura e a literatura sejam cada vez mais presentes e difundidas.

Narrar o horror para que ele não se repita

Durante a penúltima mesa da noite, Simone Paulino conversou com Scholastique Mukasonga sobre o tema: “Do racismo ao genocídio: narrar o horror para que ele não se repita”.

Scholastique Mukasonga é escritora, nasceu em Ruanda e atualmente mora na região da Baixa Normandia, na França. Dentre os livros publicados por ela, estão a trilogia A mulher de pés descalços, Nossa Senhora do Nilo e Baratas, além de Um belo diploma. Com a jornalista e escritora Simone Paulino, elas debateram temas como racismo e genocídio, que, apesar de serem amplamente condenavéis, ainda persistem em acontecer em nossa sociedade, em maior ou em menor grau.

Debater assuntos como esses é de suma importância para que eles não voltem a se repetir.

De Úrsula a Torto arado

O último debate da noite reuniu Jeferson Tenório, Itamar Vieira Junior, Autor Homenageado pela 10ª edição do Fliaraxá, e Tom Farias para fazer um paralelo entre as obras Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, e Torto arado, de Itamar.

Sobre o tema “De Úrsula a Torto arado: narrativas sobre a escravidão”, os escritores debateram a importância de Firmina, que há duzentos anos foi a primeira romancista a falar sobre a Abolição da Escravatura.

Itamar Vieira Junior, um dos autores mais celebrados do momento, cujo livro encontra-se há várias semanas seguidas entre os mais vendidos no Brasil, comenta as semelhanças entre seu livro e Úrsula. “Maria Firmina dá voz a essas personagens negras e narra parte da história a partir da perspectiva delas. Essa também era uma preocupação que eu tinha enquanto escrevia a história, que não fosse a escrita de um narrador distante,  porque, pra mim, essa história só faria sentido a partir da perspectiva dessas personagens. Acho que, nesse ponto, as duas histórias se aproximam”, comentou o escritor.

Para Vieira Junior, essas histórias, ao mesmo tempo que levam entendimento sobre algumas questões, trazem tristeza em ver que, 200 anos depois, os mesmos temas ainda precisam ser falados e debatidos.

Todas as palestras podem ser vistas no canal do Youtube do Fliaraxá.

Sobre o Fliaraxá

O Festival Literário de Araxá foi criado em 2012 por Afonso Borges, diretor-presidente da Associação Cultural Sempre um Papo. Até 2016, as edições aconteceram no pátio da Fundação Calmon Barreto e, a partir de 2017, o Festival passou a ocupar o Grande Hotel de Araxá.

Cerca de 140 mil pessoas já passaram pelo Festival em suas oito edições presenciais, mais de 400 autores participaram da programação e 130 mil livros foram comercializados na livraria do evento. A 9ª edição do Fliaraxá (2020), devido à pandemia, aconteceu em formato phygital – presencial e digital ao mesmo tempo.

Este ano, em sua 10ª edição, o Fliaraxá aconteceu também em formato phygital, com o tema: “Abolição, Independência e Literatura”, sendo a Patrona do evento Maria Firmina dos Reis e o Autor Homenageado Itamar Vieira Junior.