Conceição Evaristo relembra infância em Minas Gerais e reflete sobre sua trajetória

Conceição Evaristo relembra infância em Minas Gerais e reflete sobre sua trajetória

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Homenageada do IX Festival Literário de Araxá – Fliaraxá, autora conta sobre as escolas, os professores e as lembranças para sua formação literária 

A autora mineira Conceição Evaristo conversou com Afonso Borges, curador e idealizador do Fliaraxá, sobre a infância e a importância do incentivo à leitura, em um papo realizado de forma remota, transmitido pelo Youtube, Instagram e Facebook do Festival, por conta da pandemia de coronavírus, no dia 09 de setembro de 2020. Evaristo é uma das homenageada na próxima edição do Fliaraxá, que acontece entre os dias 28 de outubro e 1° de novembro.  A homenagem à autora não foi somente uma ideia dos curadores (Afonso Borges, Heloisa Starling e Sérgio Abranches), mas veio de uma grande pedida dos leitores que admiram a obra de Conceição, como contou Afonso.

A homenageada aproveitou o espaço para agradecer a recepção calorosa do público de Araxá, em 2019, quando foi uma das convidadas que integrou a programação. “Eu comecei a me sentir homenageada desde o ano passado. Como mineira e, há tanto tempo fora de Minas Gerais, é muito significativo pra mim também [ser homenageada]”.  Nascida em Belo Horizonte, em 1946, Conceição Evaristo estudou em várias escolas de Belo Horizonte até se mudar para o Rio de Janeiro, em 1973, para se tornar professora.

Estudante do grupo escolar Bueno Brandão, onde seus nove irmãos também frequentaram, Conceição relembra que o incentivo à cultura e à literatura foram curiosidades despertadas pela mãe. “Lembro dos livros, revistinhas infantis e do jornal, que meu tio Catarino, pai da Macaé Evaristo, comprava todo domingo”. Sobre Minas Gerais ela reforça a importância de suas raízes: “A fonte onde você bebeu a primeira água, onde literalmente meu umbigo está enterrado, não há como Minas sair de mim”.

Prêmio de redação

Durante a primeira série, Conceição lembra que foi diagnosticada com dislalia, uma dificuldade de fala, e foi reprovada por conta do distúrbio naquele ano. “Eu tinha a impressão que já lia, mas por conta dessa dificuldade de pronúncia, não de entendimento, eu fui reprovada na primeira série”. Ao completar o primário ganhou um prêmio de literatura por conta do texto “Porque me orgulho de ser brasileira”, redação que também leu na formatura. Ela revela a importância de ter ganhado a competição e também da professora de Bibliotecas, Luzia Machado Brandão, que teve papel considerável na formação de leitura da autora.

O Fliaraxá também tem um prêmio de redação, que começou com 200 alunos e, na última edição (2019) recebeu mais de 5000 redações. “A importância de uma pessoa ganhar um prêmio de literatura numa idade dessa é de quase um fator de orientação de vida, como no caso da Conceição”, comenta o curador Afonso Borges.

Depois de passar por outras escolas da capital e ter sido reprovada em algumas séries, por causa das disciplinas de Matemática e Educação Física, Evaristo ganhou uma bolsa no Colégio Assunção, após ter um texto publicado por Ione Fonseca no Diário Católico. No colégio, que funcionava na Avenida Getúlio Vargas, Conceição se formou e, em 1973, se mudou para o Rio de Janeiro. “Com uma mão na frente e outra atrás porque eu nasci querendo ser professora”, destaca.

Naquela época, Belo Horizonte não tinha concurso para ser professora e Conceição não conhecia ninguém que a pudesse indicar para dar aulas na capital. Foi quando, em um Festival de Inverno de Ouro Preto, ela conheceu duas professoras da capital fluminense que a alertaram sobre o concurso no Rio. Em 1976, começa graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas eu falo que a base toda é daí, de Belo Horizonte, porque passei para a universidade sem fazer pré-vestibular”.

“Oração é uma forma de poesia”

Acerca da espiritualidade, Conceição conta que tem um altar ao lado da cama bem sincrético. “Tem Santa Rita de Cássia, Imaculada Conceição, mamãe Oxum e mamãe Iemanjá”. Apesar de ter nascido na religião católica, ela vivenciou a fé através de um catolicismo que conserva também uma crença ancestral. Sobre a oração, Conceição traça um paralelo com a poesia. “Eu poderia dizer que a oração é uma forma de poesia. Eu vejo minha mãe, minha irmã que tem uma prática mais católica que elas rezam com tanto fervor. A poesia é uma espécie de fervor, está tudo junto, misturado”.

“Eu tenho vocação para a felicidade”

A idade não é um empecilho.  Aos 73 anos, Conceição acredita estar em sua melhor fase. “Eu devo estar em uma idade plena, com muita coisa para escrever (ensaio, poesia, romance). E não é sobre a idade, mas o que consegui fazer, o que pretendo fazer, o que a vida me deu, o que eu já perdi com a vida. Como tudo, com o tempo vai apaziguando, mas eu te digo que vai apaziguando porque eu tenho vocação para a felicidade”.

A conversa com Conceição Evaristo está disponível no Youtube do Fliaraxá

O IX Fliaraxá – Festival Literário de Araxá acontece nos dias 28 de outubro a 1° de novembro e a programação completa pode ser vista no site fliaraxa.com.br. Junto a Conceição Evaristo, também é homenageado dessa edição o autor José Eduardo Agualusa. Os patronos são Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto que, se vivos, completariam 100 anos em 2020. O patrono local é Calmon Barreto, artista plástico nascido em Araxá.