
Por Gabriel Pinheiro
Sem temática definida, conversa buscou a liberdade da arte para falar sobre o amor e os afetos, permeada por histórias e causos
Na segunda mesa da noite de abertura do 12.º Fliaraxá, o curador Afonso Borges recebeu a atriz e cronista Denise Fraga e o professor, filósofo e escritor Renato Noguera. Afonso abriu a conversa destacando a ausência de temas predeterminados para as mesas deste Fliaraxá. Segundo o curador, um tema pode significar uma prisão. A ideia é que, a partir dos encontros entre autores e autoras convidados — em grande maioria, encontros inéditos — os temas surjam e se desenvolvam múltiplos. E foi justamente isso o que o público presente acompanhou neste encontro especial entre Denise e Renato.
Renato deu início apresentando os temas de seu interesse atualmente, questões nas quais se debruça em seu trabalho e pesquisa. Entre eles, as relações afetivas, os sentimentos e as formas de amar, num diálogo que engloba a filosofia, a psicanálise e a neurociência. “O amor é um alimento necessário”, destacou o filósofo. Temos aí um dos temas que surgem a partir deste encontro: o amor e os afetos. “A minha causa é a mesma do Renato”, abriu Denise Fraga em sua fala, logo na sequência. A atriz destacou o quanto, nos tempos atuais, temos medo de demonstrar o interesse no amor. Citando o dramaturgo Bertolt Brecht, ela concluiu: “Que tempos são esses, em que precisamos falar o óbvio?”
Denise Fraga trouxe para a conversa seu trabalho no teatro, sobretudo um de seus espetáculos mais recentes, “Eu de você”. Segundo ela, este trabalho, em certa medida, culmina todo um processo criativo desenvolvido ao longo de sua carreira. O teatro, para Denise, também é um lugar de afeto. “É um exercício de presença, de olho no olho, de chamar o público para que dedique sua atenção”. Neste espetáculo, a artista pede ao público suas próprias histórias, entrelaçando-as com a literatura, a poesia e a música. “Me sinto uma polidora de palavras. Embrulho para presente as histórias que recebo e devolvo para o público, que não imaginava o quão bonitas elas eram”.
A partir do entrelaçamento da fala de Denise Fraga com a prática teatral, Renato comentou: “A arte é uma possibilidade de nos dar um encantamento frente à vida”. Na sequência, Noguera fez um comentário contundente sobre os relacionamentos amorosos. Segundo o escritor, na medida em que a relação amorosa requer lidar com a falta do outro: “Amar é dar o que você não tem para quem não quer”, arrancando aplausos efusivos do público presente.
“Eu sou insistente. Eu sempre acho que dá para descobrir algo novo ainda”, destacou Denise na sequência. Boa contadora de histórias que é, sua fala foi repleta de breves causos de acontecimentos passados permeados pelo olhar aguçado da cronista, sempre atenta aos pormenores do cotidiano. “As histórias, muitas vezes, contam muito mais do que as opiniões”, ela destacou. Artista da inquietude, Fraga comentou o quanto seu trabalho busca no movimento da vida a sua força. “A minha inquietude me fez ampliar limites”.
As histórias também são parte importante do trabalho de Renato Noguera. Olhando para os mitos fundadores de diversas civilizações, o escritor busca interpretá-los frente à contemporaneidade. Segundo ele, enquanto muitos desses mitos — de divindades das culturas africanas, por exemplo — parecem dizer de um outro, de um ser divino, elas, na verdade, dizem de nós mesmos, das características do humano: temas como o amor, o poder e a dor. Resgatando uma das histórias analisadas em seus livros, Renato destacou: “Para dezenas de povos africanos, o pensamento vem do coração. É por onde a gente pensa e por onde a gente sente”.
Denise concluiu sua fala comentando sobre o poder que a arte tem de transformar. “Tudo o que eu li de literatura na vida, foi sempre transformador”. Segundo a atriz, o contato com a arte te faz ter mais compreensão sobre a imperfeição humana. Citando Simone de Beauvoir, ela declarou: “Por que eu escrevo? Porque eu preciso. Nas horas mais difíceis da minha vida, rabiscar frases – ainda que não sejam lidas por ninguém – me traz o mesmo consolo da reza para quem tem fé: através da linguagem ultrapasso meu caso particular, comungo com toda a humanidade.” No fim, uma daquelas frases síntese concluiu a conversa de maneira tocante: “O afeto é o que vai nos salvar”.
Sobre o Fliaraxá
A CBMM apresenta, há 12 anos, o Festival Literário Internacional de Araxá, um festival literário com atividades acessíveis, inclusivas, antirracistas, éticas, educativas e em equilíbrio com a diversidade, economia criativa, raça, gênero e pessoas com deficiência. Toda a programação é gratuita, garantindo a democratização do acesso. O Fliaraxá tem, também, o patrocínio do Itaú, da Cemig e do Bem Brasil, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura. Participam, na qualidade de apoio cultural, a Prefeitura de Araxá, a Fundação Cultural Calmon Barreto, a TV Integração, a Embaixada Francesa no Brasil, o Institut Français e a Academia Araxaense de Letras. Todas as atividades do Festival são gratuitas, com a curadoria nacional de Afonso Borges, Tom Farias e Sérgio Abranches e curadoria local de Rafael Nolli, Luiz Humberto França e Carlos Vinícius Santos da Silva.
Serviço
12.º Festival Literário Internacional de Araxá – Fliaraxá
De 19 a 23 de junho de 2024, de quarta-feira a domingo
Local: Programação presencial na Fundação Cultural Calmon Barreto (Praça Artur Bernardes, 10 – Centro), e programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliaraxa
Entrada gratuita
Informações para a imprensa: imprensa@fliaraxa.com.br
Jozane Faleiro – 31 99204-6367/ Letícia Finamore – 31 98252-2002